domingo, 10 de outubro de 2010

Era uma vez...

Essa era a voz suave que me fazia adormecer todo final de semana, num quarto escuro, com a luz mais fraca do abajur. Ele arrumava meu ninho da forma mais confortável. A cama era solteirão. O ar condicionado era ligado pouco antes para que eu chegasse já no friozinho gostoso e me empacotasse por entre os lençois e a manta quente e gostosa.

Acordei às 7:00hs do meu sábado para o receber. Voltei à cama e o fiz se instalar nela também. Percebi que ele olhava meu quarto nos mínimos detalhes. Curioso pelos bichos de pelúcia que ele mesmo havia me dado há anos. Havia também a bruxinha pendurada na estante, a caixinha verde com um pássaro de pedra na tampa e todos os livros e filmes que compartilhamos.

Ele esticou minhas pernas e as aconchegou por cima das dele. Começou a alisá-las com as mãos suaves e que eu tanto amo. Baixinho, como num sussurro, começou a contar a história da bruxa malvada que queria ser a mais bonita do reino. E, subitamente, meu coração se encheu de uma segurança como não sentia há tanto tempo. Eu estava no meu ninho e o meu guardião protetor de sonhos estava ali. E de repente esta era eu: pequena, frágil, vulnerável.


Adormeci em poucos minutos. Tive um sono pesado, exatamente como uma criança que não tem problemas e psicopatias adultas para tumultuar o encontro com Morfeu. Depois de anos, somos por alguns minutos pai e filha novamente. Ao acordar, ele tinha saído de fininho, eu estava sozinha. Sozinha e incrivelmente em paz.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Comer, rezar, amar

“Ruin is a gift. Ruin is the road to transformation”.
“Why can’t you just let it be?”

“- Pri, tu é Elizabeth Gilbert”!

Foi ao ouvir isso que eu resolvi pegar o livro, cuja capa rejeitei de cara achando que se tratava de livro de autoajuda (vamos combinar que parece!). Eu estava naquela fase crítica da qual já falei aqui. Larga tudo e começa tudo de novo. Mas, naturalmente, toda mudança traz consigo uma bagagem de incertezas e, mais ainda, de consequencias.

Pois bem, disseram-me esta frase no dia em que decidi e fiz. Dali em diante, o livro me acompanhou por uns bons dias, até que eu retornasse à minha rotina. Hoje, ao ver o filme muitíssimo esperado, me dei conta de que sim, eu sou Elizabeth Gilbert!

Liz é uma mulher que se adaptou aos homens da sua vida. Esta adaptação lhe rendeu relacionamentos muito felizes de início e miseravelmente infelizes de final. Adaptar-se é bom e comum. Adaptar-se demais é perda de identidade.

O fim de quem se perde é o pior dos fins. A gente pega o nosso vazio de sentimento, solta a bomba pra cima do outro e diz: “tchau”. Fui cúmplice de Liz quando ela diz: “Só queria sair de fininho pela porta dos fundos, sem causar alvoroço nem consequencias, e depois só parar de correr quando chegasse na Groenlândia”. E, ainda mais, naquela culpa horrorosa de sufocar um amor verdadeiro. Mas, amor e felicidade devem andar juntos, inevitavelmente.

Assim, Liz pega sua malinha e parte. Destino: Itália. Ah, a Itália! Arrepiei-me nas primeiras cenas da belíssima Roma. Durante toda sua passagem por ela e por Nápoles eu pensei: já estive aí, com minha big mochila e minha linda amiga Carla. Itália encantadora em sua História, em sua arquitetura, em seus monumentos. Os italianos são lindos e charmosos. E vi Liz vivendo, assim como eu vivi. Por entre as ruelas, por entre os pratos deliciosos, conhecendo pessoas maravilhosas, e outras nem tanto. Liz tem a Itália como sua entrega aos prazeres simples e, principalmente, aos seus prazeres, já que, assim como eu (mais uma vez!), desde os 15 anos seu prazer era um relacionamento seguido do outro. Não, Liz, agora é a nossa hora! É a nossa hora de aprender a dizer va’fan’culo a todo o resto!

Eu hoje sou a Liz da Índia, em busca do equilíbrio. É preciso muita coragem pra ser feliz, soltar amarras, aceitar, seguir em frente. Eu e ela diferimos numa coisa porém: eu ainda não encontrei meu Javier Bardem ao som da bossa nova...



domingo, 26 de setembro de 2010

Visita

                Nem a camisola ela trocou. Pra quê? Assim ele a viu durante tantos anos, não era agora que ia ser diferente. Ele estava mais magro. Bonito, que nem quando eles se conheceram. Há quanto tempo mesmo? E ele a olhava com tanto amor que os olhos brilhavam, como se estivessem ansiosos pra falar o que estava preso na garganta.
                - Senta – ela disse.
                - Eu tava aqui e não posso ir sem falar com você.
                - Eu sei, não precisa se explicar.
                Mais magro, bonito e bem vestido. Cheiroso. Os olhos dela evitavam os dele. Estes, em contrapartida, buscavam os dela.
                - Como você tá? – Quis saber, pegando na mão dela.
                - Bem. E você? – Replicou, deixando que ele pegasse em sua mão.
                - Bem também.
                Vai começar. Vai começar e vai ser horrível como sempre. Ainda está em tempo. Talvez se ela dissesse que está tarde e que amanhã é segunda-feira, dali as coisas não passariam. Mas, embora soubesse aonde as coisas iriam parar, não disse nada.
                - E aí, como tá a vida? – Ele, como sempre, puxando o assunto.
                -Corrida, cansativa. Ando trabalhando muito e sem tempo pra nada. Mas empolgada, sabe? Crescendo na vida. Feliz.
                Ele balançou a cabeça, concordando, só que com uma pontinha de ironia no olhar. Fazia um bico esquisito também.
                - E você, estudando? Como tá lá no estágio? – A vez dela.
                - Sim. Tudo na mesma, as coisas sempre do mesmo jeito.
                - Você está mais magro.
                - É que eu tô me cuidando. Tenho metas.
                - Entendo. – E lá estava ela, também concordando, inclusive com a cabeça.
                - Você tirou minha foto dali. – Ele observou decepcionado.
                Começou.
                - Tirei. Estava na hora. Até porque eu sei que as coisas já mudaram demais. Não acho bom acordar e dormir olhando pra sua cara.
                - Eu também tirei sua foto da minha mesa depois daquele domingo.
                Aquele domingo. Era o ponto final. O que diabos eles estavam fazendo agora?
                - É tão esquisito. Eu não quero voltar, mas eu tô aqui. Não vejo razão para estarmos separados! – Agora é oficial, ele começou.
                - Eu entendo, sei como é. Mas não dá... a gente não dá.
                - Por quê? As coisas estão se ajeitando!
                - Mas a gente não tem jeito.
                Era o começo daquele diálogo infinito. Essa é a parte em que ele começa a dar motivos pra que eles fiquem juntos outra vez. Ela começa a se desesperar e a se exaltar:
                - Não, não dá!
                Ele se irrita e, com aquela expressão irônica, martiriza-se:
                - Eu não sei por que eu ainda venho, ainda tento. Não sei que segurança burra é essa que me faz querer verificar se você ainda está aqui, como você pensa, se você já quer voltar pra mim. Que raiva!
                Segurança. Bingo! Nada mais que segurança. A segurança que faz as pessoas sempre ficarem com um pezinho no passado, ainda que certas do que estão fazendo e aonde querem chegar. Seguro é o que tivemos, e não o queremos ter. Eles são a segurança um do outro. Há quanto tempo mesmo?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Ne me quitte pas

Hoje é feriado. Sentei-me numa mesa com Halysson Britto e conversei todas aquelas coisas que dois amigos conversam. Do mais simples às psicopatias mais loucas do ser humano. Sei que teve uma hora em que me dei conta daquilo que me persegue todos os dias: ele vai embora.

Primeiramente, saibam que eu tenho 22 anos. Conheci Halysson há 10 anos. Raciocinem comigo: é quase metade da minha vida! É ele quem sabe de absolutamente tudo de mim. Meu diário masculino ambulante. Aí, direito dele (digo isso pra aceitar, pra me convencer), ele decide ir embora.

Tenho seriíssimos problemas com pessoas que vão embora. Sou um verdadeiro parodoxo. Aprendi a ser forte em relação a relacionamentos amorosos e esqueci da fortaleza em relação aos amigos. Não sei, simplesmente não consigo, dar tchau. E não tem quem me convença de que as coisas serão iguais.

Tive 3 namorados. Em todas as minhas relações, minha maior dificuldade foi abrir mão do dia-a-dia. Como deixar as pessoas simplesmente irem embora? Por mais que as relações não estejam dando certo, pensar que elas não vão mais fazer parte da minha vida, me dá pânico.

Eu sei, eu sei... a amizade não muda. Mas é que, antes de tudo, eu preciso calar esse monstro que mora dentro de mim e que queria agrupar tudo e todos embaixo das minhas asas. Deixar ir. Preciso aprender a ir e deixar ir.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Apagar de velinhas

     Eu queria me sentar e escrever milhares de coisas. Mas, como me expressar se o que sinto é um turbilhão de idéias e sentimentos e coisas? Ocorre que hoje é aniversário. Não, não é o meu. É que até defini-lo é complexo. Mas tento, porque ele merece enfim...

    Sabe aquela sensação de incredulidade misturada com euforia, misturada com timidez, misturada com uma vontade louca de gritar? Foi assim que eu o conheci. Uma coisa inesperada e, pra mim, surreal. 
         
   Sei que ele me apareceu. Como quem não quer nada, como quem pede licença só pra passar. De repente, ele se transformou em indicação de filme. Depois, ele me lia. Lia todas as linhas que eu escrevia. Depois, era troca de impressões. Não mais sobre filme, mas sobre a vida, sobre sentimento, sobre medo, sobre dor, sobre filosofias várias. Depois, virou uma narração dos episódios que perdi de Lost, por estar vivendo Elizabeth Gilbert na Europa. Depois, virou tanta coisa que prefiro deixar sem definição.
         
   Pra que me entendam, falo de olhos vivos e brilhantes. Um homem-menino. Uma criatura cheia de sonhos e admiravelmente sensível às coisas da vida. Falo de amor em forma de gente.
         
   E assim ele permaneceu. Até quando não sabia o que acontecia, as palavras dele se encaixavam e faziam todo sentido. Como um anjo, que chega na hora certa e diz: “ei, menina, acorda!”. Mas, bem humanamente mesmo, como em Magnólia, somos vidas que se cruzam e que se dizem: “não é por acaso!”.
         
   Queridíssimo amigo, te presenteio com as cores de Embriagado de Amor. Brindo teu dia e nosso bendito encontro, ao som de “save me”, de Nina Simone, de Walter Franco. Torço pra que, pelo menos um dia, como em Antes do Amanhecer, a gente se encontre de verdade, pra que eu possa te dar um abraço de obrigada por tantas coisas inominadas e verdadeiramente especiais.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cabine Coletiva

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Eis a minha participação relâmpago no Cabine Coletiva, do site Cabine Celular, do meu queridíssimo amigo Mau Saldanha. Apareço duas vezes. Tinha mil coisas pra falar, mas tava com o tempo apertadinho, na correria.

Espero que gostem!


terça-feira, 3 de agosto de 2010

Reflexões desimportantes

Enquanto se espera na desorganização do 4º JEC, no meio da manhã, sem nada pra fazer, reflete-se abobrinhas:

Era uma vez uma pessoa cansada. Um belo dia, esta pessoa resolveu jogar tudo para o ar. Assim, meio Elizabeth Gilbert (Comer, rezar, amar). Adeus, emprego! Adeus, namorado! Porém, diferentemente de Liz Gilbert, aqui foi uma pseudo-mudança-de-vida. Muda-se, mas sem sair do lugar.

Esta pessoa sou eu, que busco não sei o quê, não sei onde. Sei que o engraçado é me ver numa vida jurídica quase 24hs por dia. Até dormindo me vem prazo, hora, obrigações, pessoas. Busquei outrora a sala de aula para fugir da sala de audiências. E, hoje, não saio de uma dessas.

Quanto ao namorado, alguém me explica o que diabos vai me aquietar? Não quero ser sozinha, sou bem melhor quando ganho beijinhos, mensagens de texto e muito, muito carinho. Sou uma namorada tão legal, todo mundo sempre disse isso. Acho que o que me cansa é a confusão namoro-prisão. Sejamos livres, amantes, amigos e complementos! Mania feia de tanta posse e egoísmo!

No mais, sei lá aonde é que a vida vai me levar. Ando um passo de cada vez, não me atropelo mais. O futuro, ainda que próximo (o amanhã literal mesmo), é preto, como a pasta que usei como encosto para rabiscar estas palavras. E, enquanto meu futuro amor devastador não chega, vou me divertindo com algumas figuras folclóricas que aparecem com papinho, com jeitinho, com coincidências, com sorrisos infantis, com carinhos insuficientes.

É que o coração é exigente e mais durão que Rocky Balboa. Vamos ver quem será homem bastante pra me fazer escrever um texto apaixonado, meloso e irritante. Quem não for, entre na fila pra ser implicitamente citado num texto qualquer, enquanto se espera o pregão da audiência das 9hs40min do 4º Juizado Especial Cível da Capital.

PS: Tem namorada? É noivo? É CASADO? Procure a autora do blog da esquina e se toque!

PS2: Não foi bem um pregão. No 4º JEC a coisa funciona na base do grito mesmo. "BANCO GMAAAAAC". Tchau.


"Não, eu não sambo mais em vão
O meu samba tem cordão
O meu bloco tem sem ter e ainda assim
Sambo bem à dois por mim
Bambo e só, mas sambo, sim"