domingo, 26 de setembro de 2010

Visita

                Nem a camisola ela trocou. Pra quê? Assim ele a viu durante tantos anos, não era agora que ia ser diferente. Ele estava mais magro. Bonito, que nem quando eles se conheceram. Há quanto tempo mesmo? E ele a olhava com tanto amor que os olhos brilhavam, como se estivessem ansiosos pra falar o que estava preso na garganta.
                - Senta – ela disse.
                - Eu tava aqui e não posso ir sem falar com você.
                - Eu sei, não precisa se explicar.
                Mais magro, bonito e bem vestido. Cheiroso. Os olhos dela evitavam os dele. Estes, em contrapartida, buscavam os dela.
                - Como você tá? – Quis saber, pegando na mão dela.
                - Bem. E você? – Replicou, deixando que ele pegasse em sua mão.
                - Bem também.
                Vai começar. Vai começar e vai ser horrível como sempre. Ainda está em tempo. Talvez se ela dissesse que está tarde e que amanhã é segunda-feira, dali as coisas não passariam. Mas, embora soubesse aonde as coisas iriam parar, não disse nada.
                - E aí, como tá a vida? – Ele, como sempre, puxando o assunto.
                -Corrida, cansativa. Ando trabalhando muito e sem tempo pra nada. Mas empolgada, sabe? Crescendo na vida. Feliz.
                Ele balançou a cabeça, concordando, só que com uma pontinha de ironia no olhar. Fazia um bico esquisito também.
                - E você, estudando? Como tá lá no estágio? – A vez dela.
                - Sim. Tudo na mesma, as coisas sempre do mesmo jeito.
                - Você está mais magro.
                - É que eu tô me cuidando. Tenho metas.
                - Entendo. – E lá estava ela, também concordando, inclusive com a cabeça.
                - Você tirou minha foto dali. – Ele observou decepcionado.
                Começou.
                - Tirei. Estava na hora. Até porque eu sei que as coisas já mudaram demais. Não acho bom acordar e dormir olhando pra sua cara.
                - Eu também tirei sua foto da minha mesa depois daquele domingo.
                Aquele domingo. Era o ponto final. O que diabos eles estavam fazendo agora?
                - É tão esquisito. Eu não quero voltar, mas eu tô aqui. Não vejo razão para estarmos separados! – Agora é oficial, ele começou.
                - Eu entendo, sei como é. Mas não dá... a gente não dá.
                - Por quê? As coisas estão se ajeitando!
                - Mas a gente não tem jeito.
                Era o começo daquele diálogo infinito. Essa é a parte em que ele começa a dar motivos pra que eles fiquem juntos outra vez. Ela começa a se desesperar e a se exaltar:
                - Não, não dá!
                Ele se irrita e, com aquela expressão irônica, martiriza-se:
                - Eu não sei por que eu ainda venho, ainda tento. Não sei que segurança burra é essa que me faz querer verificar se você ainda está aqui, como você pensa, se você já quer voltar pra mim. Que raiva!
                Segurança. Bingo! Nada mais que segurança. A segurança que faz as pessoas sempre ficarem com um pezinho no passado, ainda que certas do que estão fazendo e aonde querem chegar. Seguro é o que tivemos, e não o queremos ter. Eles são a segurança um do outro. Há quanto tempo mesmo?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Ne me quitte pas

Hoje é feriado. Sentei-me numa mesa com Halysson Britto e conversei todas aquelas coisas que dois amigos conversam. Do mais simples às psicopatias mais loucas do ser humano. Sei que teve uma hora em que me dei conta daquilo que me persegue todos os dias: ele vai embora.

Primeiramente, saibam que eu tenho 22 anos. Conheci Halysson há 10 anos. Raciocinem comigo: é quase metade da minha vida! É ele quem sabe de absolutamente tudo de mim. Meu diário masculino ambulante. Aí, direito dele (digo isso pra aceitar, pra me convencer), ele decide ir embora.

Tenho seriíssimos problemas com pessoas que vão embora. Sou um verdadeiro parodoxo. Aprendi a ser forte em relação a relacionamentos amorosos e esqueci da fortaleza em relação aos amigos. Não sei, simplesmente não consigo, dar tchau. E não tem quem me convença de que as coisas serão iguais.

Tive 3 namorados. Em todas as minhas relações, minha maior dificuldade foi abrir mão do dia-a-dia. Como deixar as pessoas simplesmente irem embora? Por mais que as relações não estejam dando certo, pensar que elas não vão mais fazer parte da minha vida, me dá pânico.

Eu sei, eu sei... a amizade não muda. Mas é que, antes de tudo, eu preciso calar esse monstro que mora dentro de mim e que queria agrupar tudo e todos embaixo das minhas asas. Deixar ir. Preciso aprender a ir e deixar ir.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Apagar de velinhas

     Eu queria me sentar e escrever milhares de coisas. Mas, como me expressar se o que sinto é um turbilhão de idéias e sentimentos e coisas? Ocorre que hoje é aniversário. Não, não é o meu. É que até defini-lo é complexo. Mas tento, porque ele merece enfim...

    Sabe aquela sensação de incredulidade misturada com euforia, misturada com timidez, misturada com uma vontade louca de gritar? Foi assim que eu o conheci. Uma coisa inesperada e, pra mim, surreal. 
         
   Sei que ele me apareceu. Como quem não quer nada, como quem pede licença só pra passar. De repente, ele se transformou em indicação de filme. Depois, ele me lia. Lia todas as linhas que eu escrevia. Depois, era troca de impressões. Não mais sobre filme, mas sobre a vida, sobre sentimento, sobre medo, sobre dor, sobre filosofias várias. Depois, virou uma narração dos episódios que perdi de Lost, por estar vivendo Elizabeth Gilbert na Europa. Depois, virou tanta coisa que prefiro deixar sem definição.
         
   Pra que me entendam, falo de olhos vivos e brilhantes. Um homem-menino. Uma criatura cheia de sonhos e admiravelmente sensível às coisas da vida. Falo de amor em forma de gente.
         
   E assim ele permaneceu. Até quando não sabia o que acontecia, as palavras dele se encaixavam e faziam todo sentido. Como um anjo, que chega na hora certa e diz: “ei, menina, acorda!”. Mas, bem humanamente mesmo, como em Magnólia, somos vidas que se cruzam e que se dizem: “não é por acaso!”.
         
   Queridíssimo amigo, te presenteio com as cores de Embriagado de Amor. Brindo teu dia e nosso bendito encontro, ao som de “save me”, de Nina Simone, de Walter Franco. Torço pra que, pelo menos um dia, como em Antes do Amanhecer, a gente se encontre de verdade, pra que eu possa te dar um abraço de obrigada por tantas coisas inominadas e verdadeiramente especiais.