Nem a camisola ela trocou. Pra quê? Assim ele a viu durante tantos anos, não era agora que ia ser diferente. Ele estava mais magro. Bonito, que nem quando eles se conheceram. Há quanto tempo mesmo? E ele a olhava com tanto amor que os olhos brilhavam, como se estivessem ansiosos pra falar o que estava preso na garganta.
- Senta – ela disse.
- Eu tava aqui e não posso ir sem falar com você.
- Eu sei, não precisa se explicar.
Mais magro, bonito e bem vestido. Cheiroso. Os olhos dela evitavam os dele. Estes, em contrapartida, buscavam os dela.
- Como você tá? – Quis saber, pegando na mão dela.
- Bem. E você? – Replicou, deixando que ele pegasse em sua mão.
- Bem também.
Vai começar. Vai começar e vai ser horrível como sempre. Ainda está em tempo. Talvez se ela dissesse que está tarde e que amanhã é segunda-feira, dali as coisas não passariam. Mas, embora soubesse aonde as coisas iriam parar, não disse nada.
- E aí, como tá a vida? – Ele, como sempre, puxando o assunto.
-Corrida, cansativa. Ando trabalhando muito e sem tempo pra nada. Mas empolgada, sabe? Crescendo na vida. Feliz.
Ele balançou a cabeça, concordando, só que com uma pontinha de ironia no olhar. Fazia um bico esquisito também.
- E você, estudando? Como tá lá no estágio? – A vez dela.
- Sim. Tudo na mesma, as coisas sempre do mesmo jeito.
- Você está mais magro.
- É que eu tô me cuidando. Tenho metas.
- Entendo. – E lá estava ela, também concordando, inclusive com a cabeça.
- Você tirou minha foto dali. – Ele observou decepcionado.
Começou.
- Tirei. Estava na hora. Até porque eu sei que as coisas já mudaram demais. Não acho bom acordar e dormir olhando pra sua cara.
- Eu também tirei sua foto da minha mesa depois daquele domingo.
Aquele domingo. Era o ponto final. O que diabos eles estavam fazendo agora?
- É tão esquisito. Eu não quero voltar, mas eu tô aqui. Não vejo razão para estarmos separados! – Agora é oficial, ele começou.
- Eu entendo, sei como é. Mas não dá... a gente não dá.
- Por quê? As coisas estão se ajeitando!
- Mas a gente não tem jeito.
Era o começo daquele diálogo infinito. Essa é a parte em que ele começa a dar motivos pra que eles fiquem juntos outra vez. Ela começa a se desesperar e a se exaltar:
- Não, não dá!
Ele se irrita e, com aquela expressão irônica, martiriza-se:
- Eu não sei por que eu ainda venho, ainda tento. Não sei que segurança burra é essa que me faz querer verificar se você ainda está aqui, como você pensa, se você já quer voltar pra mim. Que raiva!
Segurança. Bingo! Nada mais que segurança. A segurança que faz as pessoas sempre ficarem com um pezinho no passado, ainda que certas do que estão fazendo e aonde querem chegar. Seguro é o que tivemos, e não o queremos ter. Eles são a segurança um do outro. Há quanto tempo mesmo?