domingo, 30 de maio de 2010

Dias meus

Chegou a segunda-feira revestida de normalidades. Dela não se espera nada, além da normalíssima rotina. Mau humor, indisposição, desencanto. E a realidade resplandecia dentro de mim, iluminada e crua. Segunda não é dia de filme, não é dia de descanso, não é dia de sonho. É pancada, mãos na enxada, lavouras a despir. E, na segunda, passou um vaga-lume. Piscou com ares de esperança. Uma, duas, três vezes. E só.

A terça é o alívio da segunda. Mas a terça é dia do ainda. É terça ainda, dia de semana ainda, nada ainda. Porém, a terça é menos árdua, menos brusca nas coisas. A terça é o dia-a-dia acostumado. É, ainda, mansidão. Não é novidade, apenas calmaria. E, dentro de mim, nascia a curiosidade pacífica a respeito das três piscadas do vaga-lume. Ei, vaga-lume, volta aqui! Eu te sigo, vaga-lume, porque tu primeiro me seguiste.

A quarta é um sambinha carioca. Bem de leve, só no sapatinho. A quarta é segurança, é meio. Quem era a segunda mesmo? Nem sei mais. Sei que é quarta da respiração, do alívio. É responsabilidade que não dói. Puxa minha orelha, se quiseres, pois é quarta-feira! Na quarta-feira eu brinco sem me machucar, a alma assobia. Oi, vaga-lume! Tu de novo? Mas quem és tu? Que queres de mim? E o vaga-lume olha para mim com um sorriso maroto e nem pisca. Apenas voa esperto, como quem vive pra piscar independente de qualquer razão e de qualquer querer. Pisco quando quero. E saio na malemolência carioca.

A quinta explodiu meu coração. Não era vaga-lume afinal. Era ternura. Uma ternura em forma de luz, de sorrisos, de gestos. E por isso era intocável. A ternura me olhou com olhos profundos. Alisou meu coração. Chegou numa explosão boa de escola de samba. Trouxe festa ao viver. E disse assim: mas, olha só, teu coração ainda bate! Teu coração samba! Ternura, não me deixes! Não, eu não te deixarei nunca. Fincada em meu peito, a ternura se eternizou. Não literalmente, pois nem meu peito é eterno. Mas no eterno daquele instante.

Na sexta cheia de vida e de promessas, ela me visitou. Foi-me dada sua visita durante todos os instantes do dia. A sexta é só sorriso. Todos os ritmos musicais em um único pulsar. O coração explode, o pensamento valsa, as mãos regem uma orquestra, os olhos são puro tango, ardem de paixão, desejo e amor. Ah, ternura, que bem tu me fazes!

É sábado! Sábado eufórico, turbulento, instável. Os sábados nunca são iguais. São mesmo temperamentais. O que tem a segunda de séria e sólida, tem o sábado de gaiato e solúvel. Ternura, onde estás? Aqui. Por que, além de não te tocar, não estou te vendo? Ternura? Responda-me! Estou aqui. Não, não estás. Não ouço música, não vejo dança, não sei te chamar mais pra mim. Estás me deixando, ternura? Silêncio. Ternura, tu não és minha, eu sei. Eu te recebi de presente, sem esperar, sem querer. Era segunda-feira, ternura. Eu não quis. Eu nada pedi. Mas meu coração bateu e tu prometeste. Lá, distante, eu ouvi a ternura dizer assim: pensavas mesmo que eu estaria aqui sempre? Pensavas que seria assim tão fácil? Querias que eu me transformasse em gente e fizesse teu coração viver a alegria dos batuques eternamente? Mas tu sabias, no fundo, que eu era transitória, não sabias? Por que te lamentas então, menina?

Domingo. O domingo é o prenúncio da segunda. É preguiça. O domingo é inerte. Não existe música de domingo. O domingo encerra. Fecha a semana. Dentro de mim não existe vibração alguma. É domingo e eu sou o domingo. Não existe ternura. Ela nunca foi minha. Nunca foi. Não foi. Domingo é sol que queima sem piedade. Padece a semana, padecem os ritmos, padece tudo que é terno e eterno.

Dias meus

Chegou a segunda-feira revestida de normalidades. Dela não se espera nada, além da normalíssima rotina. Mau humor, indisposição, desencanto. E a realidade resplandecia dentro de mim, iluminada e crua. Segunda não é dia de filme, não é dia de descanso, não é dia de sonho. É pancada, mãos na enxada, lavouras a despir. E, na segunda, passou um vaga-lume. Piscou com ares de esperança. Uma, duas, três vezes. E só.

A terça é o alívio da segunda. Mas a terça é dia do ainda. É terça ainda, dia de semana ainda, nada ainda. Porém, a terça é menos árdua, menos brusca nas coisas. A terça é o dia-a-dia acostumado. É, ainda, mansidão. Não é novidade, apenas calmaria. E, dentro de mim, nascia a curiosidade pacífica a respeito das três piscadas do vaga-lume. Ei, vaga-lume, volta aqui! Eu te sigo, vaga-lume, porque tu primeiro me seguiste.

A quarta é um sambinha carioca. Bem de leve, só no sapatinho. A quarta é segurança, é meio. Quem era a segunda mesmo? Nem sei mais. Sei que é quarta da respiração, do alívio. É responsabilidade que não dói. Puxa minha orelha, se quiseres, pois é quarta-feira! Na quarta-feira eu brinco sem me machucar, a alma assobia. Oi, vaga-lume! Tu de novo? Mas quem és tu? Que queres de mim? E o vaga-lume olha para mim com um sorriso maroto e nem pisca. Apenas voa esperto, como quem vive pra piscar independente de qualquer razão e de qualquer querer. Pisco quando quero. E saio na malemolência carioca.

A quinta explodiu meu coração. Não era vaga-lume afinal. Era ternura. Uma ternura em forma de luz, de sorrisos, de gestos. E por isso era intocável. A ternura me olhou com olhos profundos. Alisou meu coração. Chegou numa explosão boa de escola de samba. Trouxe festa ao viver. E disse assim: mas, olha só, teu coração ainda bate! Teu coração samba! Ternura, não me deixes! Não, eu não te deixarei nunca. Fincada em meu peito, a ternura se eternizou. Não literalmente, pois nem meu peito é eterno. Mas no eterno daquele instante.

Na sexta cheia de vida e de promessas, ela me visitou. Foi-me dada sua visita durante todos os instantes do dia. A sexta é só sorriso. Todos os ritmos musicais em um único pulsar. O coração explode, o pensamento valsa, as mãos regem uma orquestra, os olhos são puro tango, ardem de paixão, desejo e amor. Ah, ternura, que bem tu me fazes!

É sábado! Sábado eufórico, turbulento, instável. Os sábados nunca são iguais. São mesmo temperamentais. O que tem a segunda de séria e sólida, tem o sábado de gaiato e solúvel. Ternura, onde estás? Aqui. Por que, além de não te tocar, não estou te vendo? Ternura? Responda-me! Estou aqui. Não, não estás. Não ouço música, não vejo dança, não sei te chamar mais pra mim. Estás me deixando, ternura? Silêncio. Ternura, tu não és minha, eu sei. Eu te recebi de presente, sem esperar, sem querer. Era segunda-feira, ternura. Eu não quis. Eu nada pedi. Mas meu coração bateu e tu prometeste. Lá, distante, eu ouvi a ternura dizer assim: pensavas mesmo que eu estaria aqui sempre? Pensavas que seria assim tão fácil? Querias que eu me transformasse em gente e fizesse teu coração viver a alegria dos batuques eternamente? Mas tu sabias, no fundo, que eu era transitória, não sabias? Por que te lamentas então, menina?

Domingo. O domingo é o prenúncio da segunda. É preguiça. O domingo é inerte. Não existe música de domingo. O domingo encerra. Fecha a semana. Dentro de mim não existe vibração alguma. É domingo e eu sou o domingo. Não existe ternura. Ela nunca foi minha. Nunca foi. Não foi. Domingo é sol que queima sem piedade. Padece a semana, padecem os ritmos, padece tudo que é terno e eterno.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Relatividade das coisas

A mudança é visível aos olhos que a rodeiam. Seus gestos são silenciosos. É preciso respeito à euforia adolescente que se despede, dando lugar à responsabilidade adulta que se anuncia. Seu olhar é compenetrado, firme, frio, por vezes calculista. Mas sereno, condescendente, amável. Seus passos, que antes se atropelavam, assemelhando-se a um trotar devorador do mundo à frente, hoje têm nova consistência. Ela anda firme e lentamente, com notável elegância. Tal qual uma bailarina, rígida em seus movimentos; estes, belos e leves diante da admiração de seus expectadores.

Seus cabelos ganham personalidade, não mais seguem tendências. São lisos, lindos e pretos. Ela não se importa que sejam indisciplinados, ela quer que eles dancem ao ritmo do vento. Eles, assim, ganham vida. Seu rosto tem uma nova pintura. As cores vibrantes de outrora são substituídas por tons mais naturais. Desta forma, é possível ver quão grandes e brilhosos seus olhos realmente são. Simplesmente de uma negritude radiante. Ela sorri. Não com a facilidade de antes. Aprendeu a gostar de um humor mais refinado, irônico e menos óbvio.

Aos observadores o diagnóstico é claro: a maturidade chegou.

Mas quão óbvia pode ser a suposta maturidade de uma mulher? Ela, e somente ela, sabe a razão de tudo. Invisível aos olhos que a rodeiam é que o silêncio daqueles gestos é apenas cansaço, a exaustão diante de tanta euforia adolescente. Aquele olhar é tão firme quanto o medo do que vem em frente. É o medo do abismo, do desconhecido. Seus passos, portanto, são milimetricamente controlados. Correr como antigamente é precipitado e cair dói.

Aqueles cabelos soltos, revoltos, entregues ao gostoso balançar dos ventos, nada mais representam que a descrença no bonito artificial. Deixe que sintam, que voem, que sejam o que são, do jeito que são. Assim também é a pintura de seu rosto. Aquelas cores vibrantes e infantis chamam a atenção. A discrição é a melhor escolha pra quem deseja ser invisível. Quanto ao brilho de seus olhos negros, constitui a conseqüência de novas descobertas, da luz da verdade, que por vezes vem em forma de dissabores. Lembremos que os olhos que choram são também reluzentes! Aquele humor exigente nada mais é que menos pureza e mais rigidez. O sorriso é de uma ternura sincera, porém tímido, porque a alma, mesmo sorrindo, tem lá os seus pesares.

E este é o segredo dela. A verdade que não transparece. A carcaça que esconde a sutileza das coisas. Externamente, maturidade. Internamente, apenas um coração que anda apertadinho.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Hoje é dia 11 de maio de 2010.

"Pai, eu não faço questão de ser tudo, só não quero e não vou ficar mudo, pra falar de amor pra você..."

Lembro-me dos mimos vários de uma criança extremamente amada. Foi-me proporcionado um mundo de magia, de fadas, de histórias se fim, de jardins secretos, de "em busca do vale encantado", do universo infinito da leitura, das brincadeiras de menino (que são sempre mais divertidas que as de menina), de banhos de chuva. Assim eu fui: embalada por histórias desde o amanhecer até o último segundo que me manteve acordada. A cama era enorme pra mim, que sempre fui tão pequenininha. A luz era a mais baixa do abajur, que tinha 3 níveis de claridade. A voz que me embalava era suave...

Lembro-me de ter aprendido coisas que não se aprendem normalmente. Aprendi o alfabeto russo. Depois o grego. Sabia os nomes das árvores, das estrelas, das nuvens. Aprendi a raciocinar rápido e a falar tudo ao contrário... não era Priscilla, era allicsirP. Assim, poderíamos falar o que quiséssemos, o tempo todo.

Lembro-me das idas à Bica (incontáveis!). De alimentar os patos com pipoca. De passar horas no parque. A praia do Cabo Branco, suas pedras, suas piscinas, suas areias, tudo tem a minha marca. O bosque dos sonhos, hoje consumido pela imensidão e modernidade da Estação Cabo Branco, guardou muito dos meus sonhos. As cadeiras do teatro Ednaldo do Egypto guardaram muito das minhas admirações. Um dos palcos mais simples da cidade atraindo uma criança cujo maior desejo era estar nele.

Lembro-me de me lambuzar com o picolé de cajá. E dirigia sentada no colo, achando-me a adulta das adultas. A rede gostosa da casa da praça ao som de Beethoven, Mozart, Bach. O primeiro voo: o avião era PP-FGY. O guaraná gelado, pra aliviar a aridez dos dias, enquanto acompanhava decolagens e aterrissagens. A brincadeira do dedo ao passar pela ponte, sempre que voltava do colégio.

Deixo de lado o desenrolar da vida. Permito-me ser criança mais uma vez na data de hoje. E digo, talvez unicamente por aqui, porque não sei se terei a oportunidade pessoalmente, que eu sou o que sou por causa dessas pequenas coisas. Independentemente de personagens, de escolhas, de caminhos seguidos, de pensamentos, de silêncios fantasmas que nos acompanham sempre, eu olho a dedicatória do livro de Andersen que recebi em 1996 (“Para Priscillinha sonhar, até quando for adulta. Papai.”) e sou eternamente grata por ter recebido essa dádiva. Sonhar é minha única fé. Obrigada por isso, pai. Parabéns pelo dia! Eu te amo.