sábado, 19 de março de 2011

O que o coração não vê

“Tá calada hoje...”

Estou mesmo. Sabe aqueles dias em que se pensa em um milhão de coisas e, se alguém perguntar no que estamos pensando, não saberemos responder?

Eu e minha mãe conversando via MSN, embasbacadas com a constatação de como as pessoas podem se mostrar rancorosas, mesquinhas e pequenas diante de certas situações, comentamos a respeito do que nos resta diante disso: decepção.

Cada romance com suas particularidades, todos eles com um ponto em comum: a idealização da pessoa amada. Quando nos aproximamos dela, quando nos deixamos envolver, quando passamos a desejar a companhia, o som da voz, compartilhar momentos e nos pegamos viciados na amada, game over.

Amamos muito mais o que a pessoa representa, o que ela nos faz sentir quando estamos com ela, as loucuras emocionais que vivenciamos por causa dela e, acima de tudo, nossas expectativas de felicidade criadas sobre ela.

Depois da paixão desenfreada e da convivência diária, surpresa: mera e simples mortal. Os defeitos da criatura amada terminam majorados diante dos nossos olhos e a tendência é que nos decepcionemos profundamente, simplesmente porque criamos uma maravilha que não existe. Ou existe, mas cheia de defeitinhos, como todo ser humano tem que ser.

Isso me lembra uma frase de Elizabeth Gilbert: “Se você quiser mesmo conhecer alguém, precisa se divorciar dessa pessoa”. E é assim que é.

A primeira verdade que extraio dos meus pensamentos é a de que a gente supervaloriza as pessoas quando se deixa envolver. A segunda é a de que eu posso me sentir sozinha e sofrer horrores com isso, mas quero enxergar as coisas do jeito que elas são, vivendo as pessoas ao invés de idealizá-las. Enquanto ainda descubro como se faz isso, fico assim, quietinha.

“I fell in love with a dream that I built of you”.

domingo, 13 de março de 2011

Easy like Sunday morning

No vazio de domingo é que as coisas são verdadeiramente sentidas. Como já tinha vivido aquela coisa de amar muito e ser tudo recíproco, sabia que com pouco não podia se contentar.

No dia anterior, decidiu do nada dizer a ele que não dava mais. Como não dava? Não dava, oras. Coisa mais absurda, pra quem um dia viveu um romance de tirar o fôlego, ficar com migalhas de uma coisa tão frágil e com tempo de vida contado. Era melhor cortar pelo pé, ela sabia.

Mas onde diabos se agarrar? É verdade que, ainda bem, existem amigos e bares e festas. Entretanto, hoje é domingo e este não se alimenta de vida social. O domingo é a porrada da verdade: amanhã é segunda-feira e a vida real é isso.  

Foi neste domingo que ela sentiu o som de “cri, cri, cri”. O celular sequer deu sinal de vida. Zero vontade de sair. Falta dele? Sim. E o que se pode fazer? Nada.

Ele está lá cumprindo com seu papel de domingo. Talvez a praia de sempre, talvez um dia em família. Ela espana a poeira da alma. Lembra das risadas que arrancou, dos momentos light que passaram juntos, das coisas compartilhadas, da vontade crescente de um abraço, de um cheiro na nuca, de beijinhos o tempo todo.

É assim que se começa, ela sabe. E antes que vire um sentimento traiçoeiro e com vida própria (sim, eles dominam as pessoas), foi preciso cortar o mal (ou bem?) pela raiz. Era preciso.

O que mata mesmo é o tal do domingo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Pro outro lado de lá

Olho para as malas no guarda-roupa da minha mãe. Escolho aquela que estava comigo no dia em que você me conheceu. Lembrei-me disso ao abri-la e ver um pedacinho da caixa de papelão que guardou as tulipas de cerveja que eu comprei pra gente.

Escolho meticulosamente cada peça de roupa que disponho pra levar. Encontro aquela blusa que, com apenas poucos movimentos, mostra tudo. Foi você que fez essa observação. Ela fica. Tem nada a ver com o calor do carnaval mesmo...

Pego minha câmera e dou uma olhada se está tudo em ordem com a bateria. Não só está, como encontro nossos beijos e sorrisos registrados. Apago tudo, porque nada existe e porque não vou levar você comigo.

Vou atrás da minha escova de dente e dou de cara com aquelas outras que a gente morreu de ganhar naquela viagem. Levo a que já existia antes de você.

Pego o sabonete e, que droga, me lembro de que eu sempre me esqueço da maldita saboneteira. Qual é o meu problema? Antes tinha a sua azul. Mas, foda-se. Saboneteira tem em todo lugar, não preciso da sua.

Toalha. Preciso de toalha. Você sempre dividiu a sua comigo, mas essa é minha hora e a hora da minha toalha. Você está longe de nós duas e nós não queremos você.

Encontro minha pinça e escolho levá-la. Eu nunca levo e não sou amiga dela. Você sempre me lembrou da maldita pinça. Pego-a agora. Vou ser amiga dela e não vou ser nada sua.

Pego meus óculos de grau. Não gosto deles, apesar de ouvir de você, inclusive mais de uma vez, que eu deveria adotá-los sempre. Ler é uma coisa anticarnavalesca, eu sei. Mas vai que bate este mesmo desespero de agora e eu precise escrever qualquer coisa...

Olho meu celular branco e sei que ele carrega toda nossa história. Desde o primeiro SMS, ao último. Acho engraçado me dar conta de que ambos têm o mesmo conteúdo, apenas mudando as personagens: o fim. Ele vai comigo. E eu vou enchê-lo de outras histórias.

Respiro fundo e choro como um bebê. Pego minhas coisas e vou, da mesma forma como você nos conheceu. Só que agora na direção contrária, deixando tudo pra trás.