Mais na frente, encontro aquela menina irritantemente chorona. Ela fala comigo, como de costume, olhando pro chão: não agüento mais. Chora, chora, chora. Eu, como sempre, choro junto. Mas, desta vez, percebo como ela é mesmo muito irritante. Pena. Toco em seu queixo e levanto sua cabeça. É a primeira vez que a vejo tão de perto. Por que era mesmo que nunca a olhava de frente e ela sempre estava de cabeça baixa? Ah, já sei. Bastava ela aparecer que eu me sentava ao seu lado, rendendo-me à sua dor. E ela é simplesmente chorona demais pra levantar a cabeça sozinha. Ela me olha muda. Eu a olho com pesar. Ela deixa as lágrimas caírem, mas não produz nenhum som. E sorri. Eu, ainda com pena, respiro fundo e a deixo.
Continuo a caminhada. Encontro uma senhora. Ela anda com cautela, segura sua bengala com força. Não me dá a mínima atenção. Não dá atenção a nada na verdade. Eu ofereço meu braço para que ela tenha onde se sustentar, para que, pelo menos, possa olhar o que se passa. Eu prometo que serei cuidadosa. Ela, contudo, olha-me com aquela seriedade e diz: eu sou feita de gelo; se me tocar, eu derreto. Sou apenas água em forma de pedra. Por isso não falo e mal ando. Sou o deslize em câmera lenta da minha própria essência. Olhei-a com clareza. Mas quem diria! É pedra, mas é pedra de água.
Mais adiante, encontro minha cama. Ainda bem. Cansei. Fiz um contrato com o diabinho. Calei a menina chorona. Respeitei a velhinha cuidadosa feita de pedra de água. Em meu travesseiro encontro uma magnólia. Vejo o diabinho sorrindo em uma pétala, a menina chorando silenciosa e de cabeça erguida em outra e a velhinha andando com sua bengala, sem prestar atenção, em outra. Percebo que estão todos interligados, como os personagens complexos daquele filme de várias facetas. Eu sabia que eles existiam, mas não conhecia suas caras e formas. Passava por eles e não parava. Só agora resolvi me relacionar com os três, dentre os incontáveis outros personagens que sei que existem, que são um só e que vejo no reflexo do espelho. Encarei as minhas partes que me apareceram hoje. Diabinho, menina e velhinha: eu.