sexta-feira, 11 de junho de 2010

Wising up

Eu esmurrei o diabinho sarcástico e irônico que me olha de frente, toda vez, e diz: falta de aviso é que não foi. Ele ri. Eu bato de novo. Ele ri mais ainda. Eu o espanco, com toda minha força, com toda minha revolta. Eu grito. Então, eu e ele rimos. E sorrimos. E apertamos as mãos, como quem sela um acordo. Ele faz uma reverência, todo posudo como ele sempre é. Eu consinto com a cabeça e continuo andando.

Mais na frente, encontro aquela menina irritantemente chorona. Ela fala comigo, como de costume, olhando pro chão: não agüento mais. Chora, chora, chora. Eu, como sempre, choro junto. Mas, desta vez, percebo como ela é mesmo muito irritante. Pena. Toco em seu queixo e levanto sua cabeça. É a primeira vez que a vejo tão de perto. Por que era mesmo que nunca a olhava de frente e ela sempre estava de cabeça baixa? Ah, já sei. Bastava ela aparecer que eu me sentava ao seu lado, rendendo-me à sua dor. E ela é simplesmente chorona demais pra levantar a cabeça sozinha. Ela me olha muda. Eu a olho com pesar. Ela deixa as lágrimas caírem, mas não produz nenhum som. E sorri. Eu, ainda com pena, respiro fundo e a deixo.

Continuo a caminhada. Encontro uma senhora. Ela anda com cautela, segura sua bengala com força. Não me dá a mínima atenção. Não dá atenção a nada na verdade. Eu ofereço meu braço para que ela tenha onde se sustentar, para que, pelo menos, possa olhar o que se passa. Eu prometo que serei cuidadosa. Ela, contudo, olha-me com aquela seriedade e diz: eu sou feita de gelo; se me tocar, eu derreto. Sou apenas água em forma de pedra. Por isso não falo e mal ando. Sou o deslize em câmera lenta da minha própria essência. Olhei-a com clareza. Mas quem diria! É pedra, mas é pedra de água.


Mais adiante, encontro minha cama. Ainda bem. Cansei. Fiz um contrato com o diabinho. Calei a menina chorona. Respeitei a velhinha cuidadosa feita de pedra de água. Em meu travesseiro encontro uma magnólia. Vejo o diabinho sorrindo em uma pétala, a menina chorando silenciosa e de cabeça erguida em outra e a velhinha andando com sua bengala, sem prestar atenção, em outra. Percebo que estão todos interligados, como os personagens complexos daquele filme de várias facetas. Eu sabia que eles existiam, mas não conhecia suas caras e formas. Passava por eles e não parava. Só agora resolvi me relacionar com os três, dentre os incontáveis outros personagens que sei que existem, que são um só e que vejo no reflexo do espelho. Encarei as minhas partes que me apareceram hoje. Diabinho, menina e velhinha: eu.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Reticências

"E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania."

Após algumas conversas esparsas sobre coisas desimportantes e a caminhada de volta, estávamos os dois deitados. No quarto, havia duas camas de solteiro. Eu, em uma, ele na outra. O único contato físico que tivemos, até então, havia sido os dois beijinhos usuais do cumprimento.

Conversávamos sempre, o tempo todo. Lembro-me de que ríamos. Olhávamo-nos nos olhos. O tempo foi passando. O sol se esvaía. Ao final da tarde, estávamos muito próximos. Eu, na pontinha da minha cama, ele na da dele. A essa altura, falávamos baixinho, quase sussurrando. Os olhares sempre fixos.

Anoiteceu. Assim permanecemos: deitados e próximos. As únicas luzes vinham dos demais cômodos da casa e da lua. Eu o via e ele me via.

Foi breve. Tudo breve. Breve como esse texto e como os dias contados em que eu o vi adormecer em meus braços após aquela tarde. Mas foi grande. Foi seguro e real. Fez-me gigante, bonita e mulher. Levou tudo de mim, presenteando-me, ao mesmo tempo, com completude. Todos os meus pedaços se juntaram, ainda imperfeitos, mas bastantes, encaixados, coerentes. Deus existiu.

E acabou.

Ele fez de mim inspiração de sua poesia. E eu me fiz, dali em diante, uma só mulher em várias prosas diferentes.

sábado, 5 de junho de 2010

Teia de aranha

"...algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. [...] Como a vida é tecelã imprevisível..."

Madri, fevereiro de 2010. Estávamos eu e Carla andando. Andávamos com mapas em mãos, em direção a algumas coisas, mas sem rumo algum. Era inverno. Porém, a sensação que eu tinha era de que nossa felicidade era tanta que o sol nos acompanhava sempre. Portanto, era um dia de inverno ensolarado.

Adoro meu eu viajante. Adoro sentir na pele, além daquele vento gostoso, a sensação de voar sem asas. Eu sou as surpresas no caminho. Por menores que sejam, são surpresas. Em viagens, deixo meu eu ansioso em casa e liberto meu eu que se deixa conduzir pelo que não conheço. Eu sou as lentes da câmera que registram cada cor. Eu sou, ainda, sentidos apurados. Minha ansiedade de viver as coisas fica em casa pra dar lugar a olfatos, paladares, visões, tatos e audições. Assim, eu me espalho em sentidos e me dou sentido.

Em frente ao Palácio Real, uma surpresa. O violeiro tocava Sonata ao Luar. A Sonata fluiu e levou meu pensamento pra longe, pra uma saudade que não dói mais. É mentira que saudade dói pra sempre. Ela tem o condão de se transformar na medida em que nos transformamos. Ali me lembrei da minha avó, do quanto fui embalada por aquele som. O madrileño era violeiro, mas as notas que dali saíam soavam como as do piano Fritz Dobbert, cujas teclas toquei por toda minha vida. Inicialmente, aos 5 anos, com as mãos pequenas guiadas por aquelas mãos suaves dela. E a saudade sem dor é um suspiro na alma. Ah, ela viveu! E eu aqui, em Madri, vivo, vivo e vivo. Vivo ao som da Sonata, sob um sol que não queima, rodeada de cores, sem rumo e, mais importante que tudo, livre.

Na Plaza Mayor, eu e Carla andávamos de braços entrelaçados e ríamos (como sempre), alto e demasiadamente, de alguma coisa que não consigo recordar. Também pudera, motivos não faltavam! De repente, em meio àquele turbilhão de gente, as lentes de um fotógrafo madrileño nos capturaram. Nossa liberdade e felicidade gritante foram eternizadas em uma fotografia. Lembro-me de ter sentido uma vergonha misturada com cumplicidade. Vergonha por ter sido flagrada. Cúmplice da sensibilidade de quem estava ali pra capturar os momentos preparatórios do carnaval da cidade e entendeu o carnaval de sentimentos que emanava da gente.

Na última noite, teve o Rafa. Adoro deixar meu eu tímido em casa e ser meu eu espontâneo em viagens.  Rafa nos doou sua amizade e conversamos horas a fio, até o último minuto, sobre o que queríamos. Senti uma empatia instantânea e recíproca. Isto confirma o que digo sempre sobre viagens: as pessoas que conhecemos, não importa de onde sejam, são inesquecíveis. Sou verdadeiramente fã do acaso. Graças a ele, dentre todos os lugares do mundo inteiro, estávamos ali, naquela salinha, nós três, ao mesmo tempo. Rafa é brasileiro. Mas, se aquele instante não existisse, nunca nos conheceríamos. Foram muitas risadas, muitas histórias contadas. O que restou disso foi um desenho feito por Carla e assinado pelas duas de lembrança. Nem uma foto sequer tiramos. Mas lembro do sotaque gaúcho com clareza, da risada tímida, das palhaçadas virtuais que fizemos com o notebook de Alexandra. E lembro-me de tê-lo achado muito querido por ter nos acompanhado naquela noite, ao invés de badalar nas boas noites madrileñas com Marcel.

Lembro-me de tudo por ter sentido várias coisas emaranhadas dentro de todos os meus eus (que também se confundem). Sinto-me assim hoje, presa no meu eu real, estático, rotineiro. Presa em um emaranhado de coisas que acontecem todos os dias. Eu sou uma bagunça, várias dúvidas e sentimentos confusos. Só que é bom lembrar, de vez em quando, que essas coisas também acontecem de uma forma inesquecível e verdadeiramente feliz. Como em Madri. Como ter a irmandade de Carla todos os dias. Como perceber sons e recordar coisas boas. Como ser percebida por desconhecidos. Como conhecer pessoas inesquecíveis.