segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Cartilha

Toda escolha traz consigo uma desescolha (sim, eu inventei essa palavra). Se você escolhe um Mc Donald’s, está abrindo mão da frutinha saudável. Ao escolher o desconhecido ir embora, abre-se mão do conhecido ficar. Comprar e ter a coisa ou não comprar e ter o dinheiro?

Nem sempre é tão simples como ir à padaria ou ao supermercado. Mas é certo que até as escolhas mais involuntárias, aquelas que a gente nem se toca de que são escolhas, têm o outro lado da moeda, a tal da desescolha.

Pra complicar, fora as nossas escolhas, há aquelas alheias que influenciam em nossas vidas. Partindo pra praticidade da coisa, a sua escolha de não me amar (que eu bem sei não se trata de uma escolha) implica em você abrindo mão de mim.

Horas a menos de sua presença. Horas que eu preencho com o paraíso natural da Pipa. Depois, por entre os confetes e serpentinas carnavalescos das Virgens de Tambaú e das Muriçocas do Miramar. Depois, espalho meus pedaços gritantes por entre as ladeiras de Olinda. E me entrego à vida, porque a você não posso me entregar.

A escolha do não-amar é a desescolha de se esvair todos os dias um pouquinho, conseguindo ser mais forte do que seus cheiros, o barulho da sua risada e o companheirismo que vão se perdendo durante os dias vagos. E a vida é exatamente isso: esse eterno passar de escolhas e pessoas, de sentimentos e avessos, de tropeços e saltos.

Eu aprendo. Ainda aprendo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Eu te amos.

Eu observava seu jeito livre de falar tudo de forma engraçada e com uma pitadinha de ironia. Um charme, vale salientar. Acho que foi a primeira vez que o vi tão solto. Eu o vi se libertando de coisas que pareciam estar presas, esperando algum momento pra sair, como se existisse momento certo pra essas coisas. E eu ria boba, torcendo pra que a madrugada não acabasse. “Eu te amo, Pri”.

Você deitado no meu colo, doentinho, frágil, lindo ainda assim. Quanto tempo fazia que você estava em meu colo? Alguns minutos ou algumas eternidades? Eu alisava seus cabelos e tocava sua pele como quem dedilha um instrumento. Dos meus dedos não saiam som algum, mas dentro de mim uma melodia suave se fazia presente. Acariciava seus braços e deixava que minha mão se esparramasse por seu peitoral acolhedor. E beijava seus lábios gostosos, deixando que eles me invadissem por inteira. Depois você me olhou nos olhos e disse: “te amo”.

Deitada de mau jeito, como sempre, ainda com a roupa do trabalho, sentindo-me como se tivesse 88 anos, alcanço alguns rabiscos que fiz durante o dia. Penso em você porque, na verdade, isso já virou uma constante. Eu o procurei e nada. Então, resolvi falar de você pra preencher alguns pedacinhos minúsculos de saudade. É que eu inventei uma técnica de me aproximar de você em pensamento. Falo em você, penso em você, lembro de você, até que consigo sentir você. Freud explica. E aí recebo: “amo muito você, sabia?”.

Mas, afinal, o que é eu te amo? Meu eu te amo é diferente do teu eu te amo. Nenhum eu te amo é igual, decidi isso. Existe eu te amo depois (ou durante) uma transa. Existe eu te amo acordando, ou antes de dormir. Existe eu te amo que carrega consigo coisas várias, como linda, gostosa, olhares, bocas, peitos e bundas. Existe eu te amo que traz admiração, força, carinho e cuidado. Existe eu te amo que quer dizer saudade. Existe eu te amo que quer dizer tchau. Não mensuro. Não questiono. A única certeza que tenho é a de que a incerteza do amor vale a pena.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Intercorrências

Aos 17 anos dei um basta numa relação que não tinha mais sentido. É assim mesmo que classifico, sem qualquer sentido. A gente não era mais amante, nem amigo. A gente empurrava o que não tinha jeito. Na verdade, não quero que relações tenham sentido, mas existe toda uma lógica sentimental, de convivência, de querer, que há muito já se tinha perdido.

E fiquei bem. Não, nada de “bem na medida do possível”. Foi bem mesmo. Senti-me mulher pela primeira vez na vida. Era o fim do colégio, era o fim do meu primeiro namoro. E pensei: “É agora, Priscilla Marques. É agora a vez de ter uma universidade, um carro e fazer o que quiser”. Essa utopia de liberdade que a gente sempre tem.

Isso tudo “aconteceu”. Mas liberdade estava ingenuamente ligada à solteirice (o que só mostra quão imatura esta pessoa ainda era!). E foi aí que, em apenas uma semana, eu me apaixonei perdidamente. E foi aí que aprendi que liberdade e relacionamentos não são coisas opostas. Mas não é sobre isso que quero falar. Quero focar na ideia infantil que tive do “daqui pra frente” e de como a vida dá uma rasteira e diz: “acaso, minha filha. Acaso existe. Você não planejou, mas você o conheceu. Você não o quis de primeira, mas vocês saíram e foi uma das melhores noites da sua vida. Relaxe, quem manda nessa merda sou eu. Eu e minhas intercorrências”.

Aí eu acreditei em destino, em alma gêmea, até em Deus. Como aquela música belíssima que diz: “quand tu me prends dans te bras, quand je regarde dans tes yeux, je vois qu’un dieu existe” (quando tu me envolves nos teus braços, quando eu olho nos teus olhos, eu vejo que um deus existe). E aí eu pensei: “sim, existe amor. E existem pessoas que sejam apaixonadas para sempre”. Aí, em apenas 3 meses, tudo acabou. A vida dizendo: “eu avisei, imbecil. Eu que mando. Eu e minhas intercorrências”. E ele fez o favor de voltar pra ex. Aquela por quem ele não era apaixonado, aquela que ele dizia sentir pena por não viver aquilo que eu e ele vivíamos.

Até que o acaso me trouxe o homem que mais me amou até hoje. Ele conseguia o feito de achar alguma coisa cômica ou bonitinha nos meus piores defeitos. E eu sentia o amor em cada gesto, em cada olhar, em cada sms, em cada carinho, em cada respirar quando dormia ao seu lado. E me lembro de ter dito a minha mãe um dia: “se isso acabar, se isso não der certo, eu não sei mais o que dará”. E não deu. E a escolha foi minha, depois de muita relutância pra entender que já tinha acabado e só a gente não queria ver.

Acontece que sempre, em todas as histórias que vivi (que jamais caberão em apenas um post), o que me consumia era querer respostas, querer entender, querer definições. Isso me consome. Pensar, vício que me persegue. E lhes digo que de nada adianta. Quando eu me agoniei pra ficar sozinha, eu me apaixonei. Quando eu me agoniei porque achava que nunca ia me apaixonar de novo, eu conheci o amor puro, completo e simples em sua complexidade. Quando achei que com esse amor viveria para sempre, o sempre durou 3 anos e alguns meses.

E me agoniei diversas outras vezes. Aliás, isso acontece várias vezes ao dia. Ansiedade infantil de querer abraçar tudo e rápido e forte. Aí me perco. E perco a oportunidade de viver as coisas com calma e principalmente de deixar a vida fluir. Preciso entender que pessoas vêm e vão. Se existe o verbo apaixonar, também existe o desapaixonar. E que poucas coisas dependem de mim. Agoniar-se é martírio, sofrimento. Sejamos amigos do acaso, das surpresas da vida. Aceitemos mudanças.

Ao me dar conta de que eu sentia tanta falta de ser carinhosa, de beijar quando quisesse, de abraçar quando quisesse, de sentir a maravilhosa sensação de braços que se encostam, pernas que se entrelaçam, sem racionalizar, sem definir, apenas ser, pensei: “onde e quando me perdi?”.

E aí li Martha Medeiros em ‘Fora de mim’ (isso não é uma indicação) em apenas algumas horas de aeroportos e vôos e esperas. E aí me lembrei de Elizabeth Gilbert. E aí me lembrei de Hélida, a vizinha alheia com quem conversei horas sobre essas coisas de mudanças e intercorrências.

Decidi então deixar. Deixar a vida me levar. Respeitar instintos. Querer e depois não mais querer. Não ter medo de me impor, mais nunca. Não ter medo de perdas. Esta é minha resolução de 2011. Fora passar na OAB (não é possível...). E ser. Com tudo que posso, com o melhor e o pior de mim.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Reflexos de natal

Aquele senhor sente todos os pesos do mundo no dia de natal. São pessoas que convivem com a miséria, a fome, a dor de trabalhar tanto e lutar tanto, apenas por um pouco de feijão com arroz. E também há a lembrança. Esta maldita que faz com que todos os natais, outrora iluminados e felizes e cantantes, perdurem em sua mente como resquícios daqueles que já foram e deixaram seu mundo infinitamente menor. Nostálgico e triste, profundamente triste.

Aquela menina vai noivar. Um natal iluminado. Família reunida e muito amor. Amor aflorando em todos os mínimos detalhes. Do sorriso sincero à troca de alianças. Olhares de um futuro promissor. Natal de esperança e união.

Aquele rapaz se descobriu doente. De repente, viu-se frágil e pequeno diante da vida. Talvez árvores, enfeites e luzes não façam o menor sentido, não tenham a mínima graça. Deus então, melhor não falar. Apenas pessoas, amigos, família e carinho. Sentimento de pequenez. Vida por um fio. Natal pequeno.

Aquela mulher está amando. Tem os três filhos em casa na noite de hoje. O homem que ama e os filhos. Alívio e completude. Comida farta. Certeza de uma vida cada vez melhor, resultado de quem não se conformou com pouco e lutou pra ser feliz. Natal do jeito que sempre quis.

Aquela outra menina sente saudade. O natal é meio triste, meio vazio. Entretanto, ela não sabe ser triste. Luta contra a saudade e a dor da perda para aceitar que isso é viver. Agarra-se ao que tem. É forte, lúcida, linda de se ver. Carrega consigo a bondade de uma criança e a capacidade de conquistar em segundos. Natal saudoso, de aperto no coração, mas ainda assim natal.

Já Priscilla, não muito fã da data e não religiosa, senta-se para escrever que, entre os sabores e dissabores dos que a rodeiam, quer mesmo muitos momentos simples e de felicidade. O que vale mesmo é tentar sempre, ajudar sempre e aprender a seguir em frente sempre. Amor a todos vocês. Amor em todos os sentidos.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sobre ser inteira

Inteiro. Adj. 1. Completo 2. Que tem todas as suas partes.

Essa coisa de ser inteira doi. Doi pra caralho. Para que me entendam, ser inteira não significa não ser flexível. Sou flexível, sou sensível, sei perdoar. Perdôo de verdade e com todo o meu coração. Sou capaz de compreender e ser racional, mesmo quando minha alma se contorce e se sufoca. Acontece que meios termos, coisas mornas, não me atraem. E passional como sou, vivo o que me atrai completamente, de todas as formas, inteiramente.

Assim, como a dor da primeira frase, sou amiga pra caralho. Caso contrário, sou colega. Ou nada. Se amo, amo com toda a imensidão deste verbo. Incondicionalmente, ou seja, em qualquer circunstância, seja como for. Se fui professora, assim me comportei nos mínimos detalhes. Do preparar da aula ao corrigir de exercícios, da responsabilidade de ser educadora à sensibilidade de ser amiga. Quando começaram a tolher meu trabalho e tive que ser complacente com certas práticas que não condizem com o que acredito, tudo foi murchando, ao ponto de trabalhar se tornar uma angústia.

Em todos os sentidos da vida, em tudo que me tem, esta sou eu. Nestas circunstâncias, resta perguntar: o que acontece quando se vive uma coisa que não me permite ser inteira? O que fazer quando as coisas vão murchando aos poucos, não porque quero, mas porque é inevitável não sentir? Entender e concordar deveriam ser suficientes pra que tudo continuasse como está, mas, quando isso fere a minha natureza, como me renegar?

Cruz e espada. Sinuca de bico. O amor que existe, que cresce, que faz parte do dia-a-dia, sentido por dois seres humanos complexos (pleonasmo?) e inversamente proporcionais neste sentir. Eu, vulcão. Ele, razão. Eu, inteira. Ele, conflituoso. Com tudo mais, a solução se encontra bem ali, na minha frente. Mas o que fazer quando se trata de amor e de diferentes naturezas? Pior, o que fazer quando se entende a racionalidade das coisas, mas isso não é suficiente para não senti-las se esvaindo?

sábado, 11 de dezembro de 2010

Futuro do pretérito do indicativo

 
"Sofre horrores, mas continua do bem...sempre inventando histórias com final feliz."

Estaria ansiosíssima. Minhas mãos suariam. Meu coração estaria naquele batuque de vários ritmos. E sorriria ‘bobamente’ (eu invento palavras. Essa parte é presente do indicativo). Estaria feliz. Meus pezinhos balançariam o tempo inteiro. Aquela velhinha iria notar e dizer que eu era nervosa. Seria o melhor nervosismo do mundo.

Chegaria feliz. Rezaria (pra quem?) pra que a mala chegasse logo, logo. E correria disfarçadamente, com passos ligeiros. E, ao te ver, meu sorriso não caberia em mim (dessa parte, eu tenho certeza absoluta). E teria uma vontade absurda de vomitar meu coração de tão pela boca que ele estaria.

E te abraçaria muito e forte, de forma a conter toda a minha felicidade num encontro de braços e costas e peitos. Dar-te-ia um beijo na bochecha demorado e nele depositaria todo o meu carinho contido. Respiraria fundo pra colocar meu coração em seu lugar devido (saia da minha boca já!) e te sorriria sempre (este eu não sei controlar).

Morderia meus lábios sorrindo, do meu jeito nervoso. E deixaria que o que tivesse de acontecer, acontecesse, sem medidas, como uma criança que, ao pegar na mão adulta, confiaria e se deixaria levar.

Este seria meu final feliz inventado. Seria, conjugado no futuro do pretérito do indicativo, como os demais verbos. A minha realidade, porém, é o não ser, a angústia do não saber e do não mais querer. Minha felicidade inventada era tão melhor que minha crua realidade. Não ser é vazio. Não saber é torturante. Não mais querer é a morte de tudo.

Fecha-se o livro do conto romântico e encara-se a vida e suas incontáveis possibilidades. Tudo o mais, não me importa mais.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Não sei se tinha o direito de fazer isso, mas qualquer coisa postada em seu lugar, não faria o menor sentido. Recebi hoje de uma pessoa querida, @alyson_vilela, achei genial, me emocionei (por ser besta e por apreciar coisas boas) e foi o perfeito encaixe no fim do dia.

     Quem é você?

Quem neste amontoado
de belas lembranças
de bonanças
e de lembranças tortas
que tanto me importa
reconhecer?
                          
Quem é você
que um dia alvoroçado
conheci aberta
pouco alerta
e agora desconfias
na rigidez fria
do não saber?

Quem está aí
que eu não tenha encontrado
na primeira vista
da conquista
Que agora se recusa
por via confusa
a se me abrir?

    Que tem na errata
que não me fora dado
Que num curto instante
delirante
Surgiu em meio ao nada
Deixando parada
a passeata?

Que tens pra nós
que eu não tenha alcançado
Que me possas dar
no lugar
que quedou-se vazio
Tirou do rocio
a doce voz?

Que tens? Que não?
Que me dês de recado
para que eu descubra
na penumbra
dos teus loucos anseios
Que atrás desses seios
há um coração?

    Que faço pois
para que deste enfado
sobrevenha melhor
e maior
encanto de renovo
Para que de novo
sejamos dois?

Quem vens a ser
que eu não tenha aceitado?
Abre pra mim teu peito
e eu te aceito
Não importa o que eu não sei
Eu te aceitarei
Sempre que me diga
quem é você.

www.twitter.com/alyson_vilela