Aos 17 anos dei um basta numa relação que não tinha mais sentido. É assim mesmo que classifico, sem qualquer sentido. A gente não era mais amante, nem amigo. A gente empurrava o que não tinha jeito. Na verdade, não quero que relações tenham sentido, mas existe toda uma lógica sentimental, de convivência, de querer, que há muito já se tinha perdido.
E fiquei bem. Não, nada de “bem na medida do possível”. Foi bem mesmo. Senti-me mulher pela primeira vez na vida. Era o fim do colégio, era o fim do meu primeiro namoro. E pensei: “É agora, Priscilla Marques. É agora a vez de ter uma universidade, um carro e fazer o que quiser”. Essa utopia de liberdade que a gente sempre tem.
Isso tudo “aconteceu”. Mas liberdade estava ingenuamente ligada à solteirice (o que só mostra quão imatura esta pessoa ainda era!). E foi aí que, em apenas uma semana, eu me apaixonei perdidamente. E foi aí que aprendi que liberdade e relacionamentos não são coisas opostas. Mas não é sobre isso que quero falar. Quero focar na ideia infantil que tive do “daqui pra frente” e de como a vida dá uma rasteira e diz: “acaso, minha filha. Acaso existe. Você não planejou, mas você o conheceu. Você não o quis de primeira, mas vocês saíram e foi uma das melhores noites da sua vida. Relaxe, quem manda nessa merda sou eu. Eu e minhas intercorrências”.
Aí eu acreditei em destino, em alma gêmea, até em Deus. Como aquela música belíssima que diz: “quand tu me prends dans te bras, quand je regarde dans tes yeux, je vois qu’un dieu existe” (quando tu me envolves nos teus braços, quando eu olho nos teus olhos, eu vejo que um deus existe). E aí eu pensei: “sim, existe amor. E existem pessoas que sejam apaixonadas para sempre”. Aí, em apenas 3 meses, tudo acabou. A vida dizendo: “eu avisei, imbecil. Eu que mando. Eu e minhas intercorrências”. E ele fez o favor de voltar pra ex. Aquela por quem ele não era apaixonado, aquela que ele dizia sentir pena por não viver aquilo que eu e ele vivíamos.
Até que o acaso me trouxe o homem que mais me amou até hoje. Ele conseguia o feito de achar alguma coisa cômica ou bonitinha nos meus piores defeitos. E eu sentia o amor em cada gesto, em cada olhar, em cada sms, em cada carinho, em cada respirar quando dormia ao seu lado. E me lembro de ter dito a minha mãe um dia: “se isso acabar, se isso não der certo, eu não sei mais o que dará”. E não deu. E a escolha foi minha, depois de muita relutância pra entender que já tinha acabado e só a gente não queria ver.
Acontece que sempre, em todas as histórias que vivi (que jamais caberão em apenas um post), o que me consumia era querer respostas, querer entender, querer definições. Isso me consome. Pensar, vício que me persegue. E lhes digo que de nada adianta. Quando eu me agoniei pra ficar sozinha, eu me apaixonei. Quando eu me agoniei porque achava que nunca ia me apaixonar de novo, eu conheci o amor puro, completo e simples em sua complexidade. Quando achei que com esse amor viveria para sempre, o sempre durou 3 anos e alguns meses.
E me agoniei diversas outras vezes. Aliás, isso acontece várias vezes ao dia. Ansiedade infantil de querer abraçar tudo e rápido e forte. Aí me perco. E perco a oportunidade de viver as coisas com calma e principalmente de deixar a vida fluir. Preciso entender que pessoas vêm e vão. Se existe o verbo apaixonar, também existe o desapaixonar. E que poucas coisas dependem de mim. Agoniar-se é martírio, sofrimento. Sejamos amigos do acaso, das surpresas da vida. Aceitemos mudanças.
Ao me dar conta de que eu sentia tanta falta de ser carinhosa, de beijar quando quisesse, de abraçar quando quisesse, de sentir a maravilhosa sensação de braços que se encostam, pernas que se entrelaçam, sem racionalizar, sem definir, apenas ser, pensei: “onde e quando me perdi?”.
E aí li Martha Medeiros em ‘Fora de mim’ (isso não é uma indicação) em apenas algumas horas de aeroportos e vôos e esperas. E aí me lembrei de Elizabeth Gilbert. E aí me lembrei de Hélida, a vizinha alheia com quem conversei horas sobre essas coisas de mudanças e intercorrências.
Decidi então deixar. Deixar a vida me levar. Respeitar instintos. Querer e depois não mais querer. Não ter medo de me impor, mais nunca. Não ter medo de perdas. Esta é minha resolução de 2011. Fora passar na OAB (não é possível...). E ser. Com tudo que posso, com o melhor e o pior de mim.