terça-feira, 11 de maio de 2010

Hoje é dia 11 de maio de 2010.

"Pai, eu não faço questão de ser tudo, só não quero e não vou ficar mudo, pra falar de amor pra você..."

Lembro-me dos mimos vários de uma criança extremamente amada. Foi-me proporcionado um mundo de magia, de fadas, de histórias se fim, de jardins secretos, de "em busca do vale encantado", do universo infinito da leitura, das brincadeiras de menino (que são sempre mais divertidas que as de menina), de banhos de chuva. Assim eu fui: embalada por histórias desde o amanhecer até o último segundo que me manteve acordada. A cama era enorme pra mim, que sempre fui tão pequenininha. A luz era a mais baixa do abajur, que tinha 3 níveis de claridade. A voz que me embalava era suave...

Lembro-me de ter aprendido coisas que não se aprendem normalmente. Aprendi o alfabeto russo. Depois o grego. Sabia os nomes das árvores, das estrelas, das nuvens. Aprendi a raciocinar rápido e a falar tudo ao contrário... não era Priscilla, era allicsirP. Assim, poderíamos falar o que quiséssemos, o tempo todo.

Lembro-me das idas à Bica (incontáveis!). De alimentar os patos com pipoca. De passar horas no parque. A praia do Cabo Branco, suas pedras, suas piscinas, suas areias, tudo tem a minha marca. O bosque dos sonhos, hoje consumido pela imensidão e modernidade da Estação Cabo Branco, guardou muito dos meus sonhos. As cadeiras do teatro Ednaldo do Egypto guardaram muito das minhas admirações. Um dos palcos mais simples da cidade atraindo uma criança cujo maior desejo era estar nele.

Lembro-me de me lambuzar com o picolé de cajá. E dirigia sentada no colo, achando-me a adulta das adultas. A rede gostosa da casa da praça ao som de Beethoven, Mozart, Bach. O primeiro voo: o avião era PP-FGY. O guaraná gelado, pra aliviar a aridez dos dias, enquanto acompanhava decolagens e aterrissagens. A brincadeira do dedo ao passar pela ponte, sempre que voltava do colégio.

Deixo de lado o desenrolar da vida. Permito-me ser criança mais uma vez na data de hoje. E digo, talvez unicamente por aqui, porque não sei se terei a oportunidade pessoalmente, que eu sou o que sou por causa dessas pequenas coisas. Independentemente de personagens, de escolhas, de caminhos seguidos, de pensamentos, de silêncios fantasmas que nos acompanham sempre, eu olho a dedicatória do livro de Andersen que recebi em 1996 (“Para Priscillinha sonhar, até quando for adulta. Papai.”) e sou eternamente grata por ter recebido essa dádiva. Sonhar é minha única fé. Obrigada por isso, pai. Parabéns pelo dia! Eu te amo.

2 comentários:

Calebe disse...

Impressiona-me a maneira como você consegue lembrar de detalhes tão pequenos de sua infância, como o prefixo da aeronave. Seu texto me fez refletir sobre minha memória...
Por vezes também me pego lembrando do passado, da época em que era feliz brincando de pique-esconde com os primos, à noite (sempre), pipas no céu e comer cajá verde com sal.
Não que hoje não seja feliz, mas percebo como a minha ideia de felicidade, naquela época, era tão singela!
Parabéns pelo texto agradabilíssimo de ser lido... novamente!

Maíra Alcoforado disse...

Eu chorei.
Vc é DEMAIS.

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