Chegou a segunda-feira revestida de normalidades. Dela não se espera nada, além da normalíssima rotina. Mau humor, indisposição, desencanto. E a realidade resplandecia dentro de mim, iluminada e crua. Segunda não é dia de filme, não é dia de descanso, não é dia de sonho. É pancada, mãos na enxada, lavouras a despir. E, na segunda, passou um vaga-lume. Piscou com ares de esperança. Uma, duas, três vezes. E só.
A terça é o alívio da segunda. Mas a terça é dia do ainda. É terça ainda, dia de semana ainda, nada ainda. Porém, a terça é menos árdua, menos brusca nas coisas. A terça é o dia-a-dia acostumado. É, ainda, mansidão. Não é novidade, apenas calmaria. E, dentro de mim, nascia a curiosidade pacífica a respeito das três piscadas do vaga-lume. Ei, vaga-lume, volta aqui! Eu te sigo, vaga-lume, porque tu primeiro me seguiste.
A quarta é um sambinha carioca. Bem de leve, só no sapatinho. A quarta é segurança, é meio. Quem era a segunda mesmo? Nem sei mais. Sei que é quarta da respiração, do alívio. É responsabilidade que não dói. Puxa minha orelha, se quiseres, pois é quarta-feira! Na quarta-feira eu brinco sem me machucar, a alma assobia. Oi, vaga-lume! Tu de novo? Mas quem és tu? Que queres de mim? E o vaga-lume olha para mim com um sorriso maroto e nem pisca. Apenas voa esperto, como quem vive pra piscar independente de qualquer razão e de qualquer querer. Pisco quando quero. E saio na malemolência carioca.
A quinta explodiu meu coração. Não era vaga-lume afinal. Era ternura. Uma ternura em forma de luz, de sorrisos, de gestos. E por isso era intocável. A ternura me olhou com olhos profundos. Alisou meu coração. Chegou numa explosão boa de escola de samba. Trouxe festa ao viver. E disse assim: mas, olha só, teu coração ainda bate! Teu coração samba! Ternura, não me deixes! Não, eu não te deixarei nunca. Fincada em meu peito, a ternura se eternizou. Não literalmente, pois nem meu peito é eterno. Mas no eterno daquele instante.
Na sexta cheia de vida e de promessas, ela me visitou. Foi-me dada sua visita durante todos os instantes do dia. A sexta é só sorriso. Todos os ritmos musicais em um único pulsar. O coração explode, o pensamento valsa, as mãos regem uma orquestra, os olhos são puro tango, ardem de paixão, desejo e amor. Ah, ternura, que bem tu me fazes!
É sábado! Sábado eufórico, turbulento, instável. Os sábados nunca são iguais. São mesmo temperamentais. O que tem a segunda de séria e sólida, tem o sábado de gaiato e solúvel. Ternura, onde estás? Aqui. Por que, além de não te tocar, não estou te vendo? Ternura? Responda-me! Estou aqui. Não, não estás. Não ouço música, não vejo dança, não sei te chamar mais pra mim. Estás me deixando, ternura? Silêncio. Ternura, tu não és minha, eu sei. Eu te recebi de presente, sem esperar, sem querer. Era segunda-feira, ternura. Eu não quis. Eu nada pedi. Mas meu coração bateu e tu prometeste. Lá, distante, eu ouvi a ternura dizer assim: pensavas mesmo que eu estaria aqui sempre? Pensavas que seria assim tão fácil? Querias que eu me transformasse em gente e fizesse teu coração viver a alegria dos batuques eternamente? Mas tu sabias, no fundo, que eu era transitória, não sabias? Por que te lamentas então, menina?
Domingo. O domingo é o prenúncio da segunda. É preguiça. O domingo é inerte. Não existe música de domingo. O domingo encerra. Fecha a semana. Dentro de mim não existe vibração alguma. É domingo e eu sou o domingo. Não existe ternura. Ela nunca foi minha. Nunca foi. Não foi. Domingo é sol que queima sem piedade. Padece a semana, padecem os ritmos, padece tudo que é terno e eterno.
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