Nesta semana, deparei-me com o artigo de Ivan Martins expondo sua opinião sobre a traição. Sua proposta é analisar, segundo as palavras do próprio autor, “não só a ética dos votos de fidelidade rompidos, mas a ética geral, que deveria colocar esses dramas íntimos em sua devida proporção, e não o faz”.
Assim, ele parte da observação de que todo traído tem reações catastróficas diante da descoberta. Mais uma vez, aqui vão as palavras dele: “acabar com uma relação estável e amorosa de anos. Jogar nossos filhos contra o pai ou a mãe deles, fazendo um mal danado às crianças. É como se um ato de traição abolisse tudo de bom que foi feito antes pelo traidor e permitisse tudo que se virá a fazer contra ele no futuro. Parece às vezes que não há nada pior no mundo”.
Aponta uma inversão de valores, na medida em que tem gente que é capaz de dormir com um assassino e não dorme com um traidor. Afirma que todo adulto é capaz de perceber que é normal pessoas comprometidas sentirem desejo por outras e, ainda, que traição não significa falta de amor, nem que era tudo mentira.
Resume seu ponto de vista afirmando que vemos a traição de forma infantil. Queremos o outro só pra gente, de forma que controlamos seus passos e queremos toda sua atenção.
Gosto de matérias assim porque me fazem pensar. Não um pouquinho, mas um bocado. E, o que me faz pensar, consequentemente me leva a escrever. Cheguei à conclusão de que concordo em partes com o que Ivan diz.
Primeiramente, é preciso analisar as coisas de uma ótica humana e não segundo padrões sociais. Temos essa ideia de que quem trai é a pior pessoa do mundo que faz a pior coisa do mundo. De fato, vamos dar a César o que é de César. Quem trai não é a pior pessoa do mundo. Somos feitos de carne, osso, pele, desejos. Somos animais! Será que, pelo fato de termos um compromisso firmado, nossos desejos e nossa capacidade de sentir coisas por terceiros é apagada, como um botãozinho de “off”? Claro que não!
O controle que queremos ter sobre o outro é mesmo infantil. É ilusório. Não se controla mente, não se controla pele, não se controla instinto, muito menos as mentirinhas que são ditas diariamente.
Tudo bem, traição não é a pior coisa do mundo. Também não significa falta de amor, pode-se ter desejo por outras pessoas sem que mude o sentimento e toda a sua proporção pelo companheiro.
Entretanto, alto lá quando se fala das reações do traído! Quem já foi traído sabe como dói. Dói muito. Chega a ser desesperador. Todo mundo se sente atraído por outras pessoas, mas a questão vai além do natural. No momento em que compartilhamos nossas vidas, não só questões instintivas predominam. Existe respeito.
Por que, então, as pessoas mentem? Pode-se chegar ao comum acordo de que, no momento em que quiserem, ambos podem ter relações com quem quer que seja. Mas, não é assim que funciona. O traidor simplesmente segue suas vontades e mente depois.
A palavra traição já designa a quebra de uma coisa acordada entre ambos. Se fosse uma visão comum, de ambas as partes da relação, não seria traição.
O traidor não quer ser traído. Disso, tenho certeza. Será que vale a pena, então, sermos tão egoístas e arriscarmos magoar quem a gente ama para satisfazermos nossas vontades?
Quem sente uma necessidade extrema de trair o tempo inteiro, ao meu ver, tem que fazer uma escolha óbvia. Relacionamentos não são prisões, somos livres e precisamos deixar nossos sentimentos de posse para vivermos aquilo que tanto desejamos.
Quem quer trair muito com alguém específico, ainda sob meu ponto de vista, tem uma escolha simples a ser feita. Será que essa vontade não decorre de uma insatisfação? Será que não existe mais coisa além de uma reles vontade? Pode ser uma nova paixão, por exemplo.
Quem se envolve apenas emocionalmente, sem trair fisicamente, aí é que tem que medir coisas mesmo! Seria este o traidor covarde? Aquele que não ultrapassa seus desejos físicos, privando-se de viver coisas novas em nome de... de quê mesmo?
Resumindo, trair pode significar várias coisas. Não acho que o traidor é a pior pessoa do mundo. Porém, não acho que a traição deve ser banalizada e simplesmente aceita. Cabe ao traidor medir seus valores, colocar-se no lugar do traído e fazer escolhas. Cabe ao traído, depois de se desesperar, procurar entender o que está acontecendo.
No mais, sejamos livres sem passarmos por cima dos sentimentos de quem tanto amamos e de quem tanto nos ama. Não é simples, mas vale o esforço.