sábado, 2 de julho de 2011

Turning tables

Ela já esteve nesse lugar antes. Não uma vez, mas um número considerável para seus anos de vida. Aquela linha imaginária entre o adeus e a estaca zero. Partir não é bem uma opção, não é um querer, é o jeito.

Esse lugar que é escuro e desesperador. Todas as forças foram gastas dias a fio num amor tão batalhado, tão sofrido, tão difícil, que só lhe restam cacos. É o lugar onde nada faz sentido.

Respirar dói como nunca. O ar que entra rasga todo pedacinho machucado: a língua do eu te amo; o nó da garganta; a pulsação fraca, quase sem vida; o coração atropelado; o pulmão vazio. O ar que sai leva resquícios de um corpo quase inerte: a dor paralisa.

Desistência é o nome. Desistir é a morte do amor fraco, o fracasso da luta vã. É dar adeus ao que não foi e tinha tudo para ser. É pegar uma caixinha invisível e guardar todas as lembranças de momentos mais que felizes, diria perfeitos ou divinos. É abrir mão: toma meu amor, mundo, e carrega.

Alguém, por favor, a lembre de que isso passa. Passa como sempre passou. Digam-na que é impossível enxergar agora, mas que o tempo cuida disso. Mostrem-na que existe um mundo de possibilidades bem à sua frente e que não é só preciso ver, mas deixar acontecer. Façam-na relembrar de tempos passados e felizes, de amores simples e verdadeiros, de sacrifícios mútuos, de pessoas que enfrentam distância, tempo, razão e dissabores pelo tal do amor.

Porque, digo-lhes sinceramente, não tá dando. Esse sofrimento tão clichê precisa de um final clichê. Urgentemente.

domingo, 5 de junho de 2011

22 anos de adolescência

Dia desses, conversando com uma amiga de longas datas, fiz uma observação bem, digamos, pertinente: quando éramos adolescentes, tudo era mais fácil.

Sei que ser adolescente é vivenciar um turbilhão de coisas e agir nem como criança, nem como adulto. Ou talvez como uma criançona dando uma de adulto. Ou talvez como um adulto se comportando como uma criança mimada. Enfim...

O comentário partiu do pressuposto de que nós, quando adolescentes, tivemos aquele amor platônico. Então estávamos lá, morrendo de amores por quem nem sonhava que passávamos, no mínimo, 30 minutos nos arrumando só pra que ele passasse alguns segundos na nossa frente e não desse a mínima para cabelos, unhas, maquiagens, etc.

Mas, ainda assim, morríamos de felicidade quando ganhávamos um oi, um sorriso, um tchau. E contávamos pras nossas amigas como se fosse a melhor coisa do universo.

Depois, a gente vive o primeiro amor de verdade. Acompanhado de beijos de verdade, de carinhos de verdade, de palavras, de gestos, de coisinhas bonitinhas. Ou nem tão bonitinhas. Na época, não tínhamos capacidade mental pra discernir.

Quando esse amor acaba, parece que o mundo cai. Mas, a gente sobrevive e, olha só, ama de novo! Ama sem medo, sem ressalvas, sem "se a gente for rápido demais, não vai dar certo".

A fórmula da adolescência é viver intensamente. Adolescente não carrega mágoas, nem dores, nem traumas de amores passados. Eles são vivos e apressados demais pra isso. Adolescente não tem pé atrás. Pelo contrário, vai com os dois pés, a cabeça, os braços e o corpo inteiro. E o coração vai na frente de tudo isso.

Por que a gente virou adulto e esqueceu que amar não é prisão? Adulto diz: "ah, não vou namorar agora. Tá muito cedo. Preciso de um tempo pra ajeitar isso, isso e isso". Adulto demora a cicatrizar feridas. A verdade é que adulto sente um certo prazer em carregá-las consigo.

Fico com os beijos roubados da minha adolescência. Prefiro-os àqueles meticulosamente calculados. Adorava receber sms a qualquer hora da noite. Adulto não manda de madrugada, porque acordar o outro a essa hora é absurdo. Lembro da sensação de receber um eu te amo sincero e cedo demais. Adulto demora alguns meses pra amar.

Caros leitores, tenho a leve impressão de que "adulteci" com minha intensidade adolescente. Sou uma pseudoadulta lidando com adultos plenamente "adultecidos", suas complexidades, seus tempos, seus medos (disfarçados, muitas vezes, pela palavra cuidado) e sua bagagem de coisa ruim dos seus relacionamentos fracassados.

Acho que só me resta "adultecer" de vez.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Pensamentos cariocas

A vida tem a tendência de pregar peças em todas as minhas certezas.

Numa hora, eu tinha uma melhor amiga. Meses depois, ela me odiava com todas as forças do universo.

Noutro dia, eu sofria horrores a dor de uma traição e a inundação de mentiras que eram jogadas na minha cara. Minha amiga Rayssa e eu estávamos ali, jurando uma à outra que seguraríamos nossas mãos e nos esconderíamos no banheiro caso precisássemos chorar. Alguns poucos meses depois, estávamos soltas na buraqueira em Porto Seguro, rindo do nosso sofrimento hiperbólico.

Naquele outro dia, minha mãe me olhou da cabeça aos pés e disse: “filha, se arrume mais um pouquinho. Coloque uma pulseirinha, um batom”. Não me dei conta de que tudo se tratava de um plano materno pra que eu conhecesse o filho de fulano. Ou, como no caso, o primo de fulano. Mães e suas manias. E fulano, pra mim, era irritante. Por teimosia, conversei a noite toda com o fulano, e não com seu primo. 2 semanas depois, eu e fulano estávamos namorando.

Meses depois, fulano tirou meu chão e voltou pra ex. Depois, eu estava no Paraguai usando minha identidade falsa, falando meu portunhol bem elaborado, vivendo a gostosa sensação de viajar só com amigas e sentindo aquela coisa inominada que se sente ao perceber que a gente passou da fase do “vou morrer sofrendo por ele” pra de “vou morrer de viver, mesmo sem ele”.

Naquela segunda-feira, eu olhava despretensiosamente sites de intercâmbio. Alguns meses após, estava em Londres estudando a língua que amo, conhecendo pessoas incríveis, comendo pão com chocolate e reconhecendo meu lado curioso e aventureiro enquanto me perdia pelas ruas da cidade.

Isso serviu para me tornar teacher. E, posteriormente, para virar Elizabeth Gilbert e jogar emprego e namoro pro ar. Era preciso.

Formei-me. Virei advogada. Entreguei-me à maravilhosa sensação de subir num tablado (nosso palco) e de me tornar aprendiz de atriz.
 
O que o Rio tem a ver com isso tudo? Numa noite de maio, sentada numa balsa entre Rio e Niterói, de mãos dadas, toda essa trajetória mutante me veio à cabeça. Entre luzes, barulhos, cheiros e águas cariocas, pela primeira vez na vida, eu não quis ter certeza. E estava feliz. Extremamente feliz.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Sobre traição

Nesta semana, deparei-me com o artigo de Ivan Martins expondo sua opinião sobre a traição. Sua proposta é analisar, segundo as palavras do próprio autor, “não só a ética dos votos de fidelidade rompidos, mas a ética geral, que deveria colocar esses dramas íntimos em sua devida proporção, e não o faz”.

Assim, ele parte da observação de que todo traído tem reações catastróficas diante da descoberta. Mais uma vez, aqui vão as palavras dele: “acabar com uma relação estável e amorosa de anos. Jogar nossos filhos contra o pai ou a mãe deles, fazendo um mal danado às crianças. É como se um ato de traição abolisse tudo de bom que foi feito antes pelo traidor e permitisse tudo que se virá a fazer contra ele no futuro. Parece às vezes que não há nada pior no mundo”.

Aponta uma inversão de valores, na medida em que tem gente que é capaz de dormir com um assassino e não dorme com um traidor. Afirma que todo adulto é capaz de perceber que é normal pessoas comprometidas sentirem desejo por outras e, ainda, que traição não significa falta de amor, nem que era tudo mentira.

Resume seu ponto de vista afirmando que vemos a traição de forma infantil. Queremos o outro só pra gente, de forma que controlamos seus passos e queremos toda sua atenção.

Gosto de matérias assim porque me fazem pensar. Não um pouquinho, mas um bocado. E, o que me faz pensar, consequentemente me leva a escrever. Cheguei à conclusão de que concordo em partes com o que Ivan diz.

Primeiramente, é preciso analisar as coisas de uma ótica humana e não segundo padrões sociais. Temos essa ideia de que quem trai é a pior pessoa do mundo que faz a pior coisa do mundo. De fato, vamos dar a César o que é de César. Quem trai não é a pior pessoa do mundo. Somos feitos de carne, osso, pele, desejos. Somos animais! Será que, pelo fato de termos um compromisso firmado, nossos desejos e nossa capacidade de sentir coisas por terceiros é apagada, como um botãozinho de “off”? Claro que não!

O controle que queremos ter sobre o outro é mesmo infantil. É ilusório. Não se controla mente, não se controla pele, não se controla instinto, muito menos as mentirinhas que são ditas diariamente.

Tudo bem, traição não é a pior coisa do mundo. Também não significa falta de amor, pode-se ter desejo por outras pessoas sem que mude o sentimento e toda a sua proporção pelo companheiro.

Entretanto, alto lá quando se fala das reações do traído! Quem já foi traído sabe como dói. Dói muito. Chega a ser desesperador. Todo mundo se sente atraído por outras pessoas, mas a questão vai além do natural. No momento em que compartilhamos nossas vidas, não só questões instintivas predominam. Existe respeito.

Por que, então, as pessoas mentem? Pode-se chegar ao comum acordo de que, no momento em que quiserem, ambos podem ter relações com quem quer que seja. Mas, não é assim que funciona. O traidor simplesmente segue suas vontades e mente depois.

A palavra traição já designa a quebra de uma coisa acordada entre ambos. Se fosse uma visão comum, de ambas as partes da relação, não seria traição.

O traidor não quer ser traído. Disso, tenho certeza. Será que vale a pena, então, sermos tão egoístas e arriscarmos magoar quem a gente ama para satisfazermos nossas vontades?

Quem sente uma necessidade extrema de trair o tempo inteiro, ao meu ver, tem que fazer uma escolha óbvia. Relacionamentos não são prisões, somos livres e precisamos deixar nossos sentimentos de posse para vivermos aquilo que tanto desejamos.

Quem quer trair muito com alguém específico, ainda sob meu ponto de vista, tem uma escolha simples a ser feita. Será que essa vontade não decorre de uma insatisfação? Será que não existe mais coisa além de uma reles vontade? Pode ser uma nova paixão, por exemplo. 

Quem se envolve apenas emocionalmente, sem trair fisicamente, aí é que tem que medir coisas mesmo! Seria este o traidor covarde? Aquele que não ultrapassa seus desejos físicos, privando-se de viver coisas novas em nome de... de quê mesmo?

Resumindo, trair pode significar várias coisas. Não acho que o traidor é a pior pessoa do mundo. Porém, não acho que a traição deve ser banalizada e simplesmente aceita. Cabe ao traidor medir seus valores, colocar-se no lugar do traído e fazer escolhas. Cabe ao traído, depois de se desesperar, procurar entender o que está acontecendo.

No mais, sejamos livres sem passarmos por cima dos sentimentos de quem tanto amamos e de quem tanto nos ama. Não é simples, mas vale o esforço.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Oi, tudo bem?

Tenho um amigo que detesta essa pergunta. Com sapiência, diz que nunca nada pode estar completamente bem.

De fato. Comecemos por nós mesmos. Sempre tem um quilinho a mais, uma espinha ali, uma estria acolá. Os cabelos são lisos, acha lindo uns cachinhos. Os cabelos são cacheados, progressiva neles. Peitos pequenos, silicone. Peitos grandes, redução. Por aí vai.

Deixando o espelho imaginário de lado, e nossas pretensões? Eu queria ter aquilo, ser aquilo, andar daquilo, conhecer aquilo, fazer aquilo, dizer aquilo. Sempre falta uma coisinha. Sempre existe uma saudade, um arrependimento, uma coisa a comprar, pazes a fazer, verdades a serem ditas.

O dinheiro nunca é suficiente. A família é cheia de defeitos. Aquele amigo te “esquece”. Quem é essa que tá na foto sorridente ao lado do ex? E a professora mal amada? E o patrão explorador?

A verdade é que quando tudo ia mal, resolvi inventar um blog pra inventar umas mentiras em situações verdadeiras e verdades disfarçadas em acontecimentos inexistentes. Ou tudo mentira. Ou tudo verdade.

Inventando-me, dentro e fora das escritas, redescobri o amor. Conheci pessoas. Viajei horrores. Terminei um curso. Desisti de coisas que imaginava serem importantes e, no final, nem eram. Enfrentei preconceitos e escolhi fazer a arte que eu sempre amei.

A família vai bem, a saúde vai bem, o escritório vai bem, os amigos vão bem. Marcelo Camelo diria: “É, morena, tá tudo bem”.

E por que, então, hoje, eu me sinto um pouquinho triste? Uma tristeza tão calada, tão íntima e impregnada. Ando meio blasée, ironizando coisas aqui dentro, silenciosamente. Pensativa.

“Tá tudo bem, mas não tá, sabe como é?” Não, não cola. Sempre tem alguém que é feliz demais pra dizer que não sabe como é. “Tá tudo médio”. Médio?! Como assim?! Na escala de zero a dez, tá tudo ali ó... médio. Melhor não. “Tá tudo mais ou menos”. Aí vou ter que explicar o que tá mais e o que tá menos.

Quer saber? “Tudo, e você?”.                                  



PS: O blog fez 1 ano em abril e eu nem tive a decência de agradecer a quem lê e comenta. Recebo comentários via facebook, twitter, MSN e ao vivo. Guardo todos eles com muito carinho na memória. Os mais especiais estão aqui escritos. Poxa, que legal saber que tem gente que lê, faz login, comenta, vê o rascunho e aperta o botãozinho de enviar comentário! :) A todos, obrigada de coração.  

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Resposta a uma carta aberta não endereçada

Caro remetente:

Sei que a carta não foi endereçada, mas, se a mim chegou, é demais pedir que não responda. Antes tarde do que nunca, inclusive. Sei que faz tempo que o escrito foi escrito.

Primeiramente, que bacana você querer alertar seu futuro-presente-talvez amor sobre a grande aventura que é entrar no seu mundo, nas suas mentiras e na sua canalhice. Achei, no mínimo, corajoso.

Já que é assim, aqui mando um pouco de verdade também (se é que interessa...). A primeira de todas eu já disse, e é muito óbvia pra quem acompanha esta "bagaça" que chamam de blog. Aparentemente, não sei me calar. Sou movida a sérios impulsos. Como diria Chico Buarque, ajo duas vezes antes de pensar.

Isso me traz sérias consequências, como aquela máxima que diz “quem fala o que quer, ouve o que não quer”. Mas, a verdade verdadeira é que não falo pra ouvir, mas sim pra me livrar do karma que é carregar certas coisas dentro de mim. Basta o sobrepeso físico, o psicológico eu dispenso.

Fico me policiando pra não ser inconveniente. Falo uma, duas vezes. Tento não bater na mesma tecla três vezes. Na quarta, garanto, estou cansada e fico quieta.

Outra coisa que existe dentro de mim é uma euforia incontida. Gosto de tudo em demasia. O rotineiro me cansa. Com isso, não quero flores, jantares surpresa e essas coisas de mulherzinha romântica. Quero um dia-a-dia normal, mas intenso. Minha felicidade é intensa, minha gargalhada é intensa, meu mau humor é intenso, meu abuso também. Tanto coisas boas, como coisas ruins.

O lado negro disso é que tenho a tendência de idealizar as coisas. Quando a vida vai levando os fatos, vou desencantando. Por outro lado, penso positivamente que é o meu jeito de passar pela paixão desenfreada para o amor mais calmo. Se você sobreviver ao desencanto, voilà, é oficialmente meu amor. Sabe aquela propaganda do Serenata de Amor? Deve ser isso. Tem que ser isso.

Não sou santa. Não sei paquerar e tenho sérios problemas de autoestima (próximo tópico). Mas isso não quer dizer que eu não olhe, que eu não deseje. Tenho pele, tenho química, tenho sangue correndo nas veias. Isso também não quer dizer que traia. Se trair, tenha certeza, tudo está errado.

É traindo e desfazendo nosso compromisso. Compromisso este que não se resume a uma cláusula taxativa (namorado, noivo, marido...), mas não vou saber mais olhar no seu rosto e dizer que amo você. Sou tão intensa (tópico anterior), que isso machuca minha natureza. A melhor tradução pra traição, no meu caso, é solidão acompanhada. Se eu trair, saiba, estou com você de corpo, mas não de alma.

Por fim, sou leonina e insegura. Sim, é um paradoxo. Interpreto-me, então, como a leonina que adora receber elogios e se sentir amada; e a insegura que precisa de elogios e precisa se sentir amada.

Não minta pra mim. Ou, até minta, mas faça direitinho. Sou tão “faladora” de sentimentos, tão intensa, tão fiel, tão leonina, tão insegura, que não suporto mentira. Antes de pretenso amor, quero ser fiel escudeira.

E se isso tudo for assustador demais, seguro sua mão e dou meu melhor sorriso, pra que você tenha a vã sensação de que tudo vale a pena.



Att,
Priscilla.


terça-feira, 5 de abril de 2011

Saga de uma vida de artista – Parte I


2 horas da tarde. Hora do soninho dos justos. Mas, não hoje. Hoje era o dia em que eu e Rayssa começaríamos nossa carreira teatral. Ontem, eu havia ligado pro teatro Ednaldo do Egypto:

- Oi, eu gostaria de informação sobre cursos.
- Cursos de...?
- De teatro, ué.
- Olha, já tem uma turma em andamento nas terças e quintas às 3 da tarde. Dê uma ligadinha nesse horário e fale com a professora.
- Ok, obrigada.

Ligadinha? Ligar pra quê? Vamos logo pra aula e deixar de conversa mole. Assim, às 2 da tarde do dia de hoje, estava morrendo de rinite. Meu nariz, minha garganta, meus ouvidos e meus olhos disputavam no quesito coceira de matar. Mas, coragem. É hoje.

Saí de casa não muito apresentável e não muito saudável. Minha amiga Rayssa já entrou no carro com aquela felicidade de quem ia subir no palco e mostrar pra que veio ao mundo. O percurso foi regado a muitas fantasias sobre o filme no qual eu ia atuar ao lado de Lilia Cabral e de meu futuro marido, Wagner Moura.

A primeira dificuldade da minha carreira artística consistiu em estacionamento. Por que diabos não tem onde estacionar perto dos teatros desta cidade? Ainda assim, parei o carro e entramos no teatro.

- Boa tarde, viemos a respeito do curso.
- Curso de...?

E foi aí que eu soube que aquela criatura era a mesma do telefone. Simpatia passou longe.

- De teatro.
- Olha, aqui é pra rede municipal. Vão ter oficinas no final de todo mês com a professora fulana de tal. Sexta, sábado e domingo. Você aparece e fala com ela.

O fulaninho porre do teatro não foi com a minha cara e me discriminou porque eu não era da rede municipal. Como se ele fosse o próprio dono do município e só participasse quem ele quisesse.

Assim, sequer nos informou do curso das 3 da tarde do qual a gente supostamente ia participar. 


- Vamos embora, amiga. A gente não é da rede municipal.


Frustradas e com raiva, rumo ao teatro Lima Penante. A secretaria do teatro é num ponto impressionante de nada estratégico. A pessoa tem que entrar no ambiente e adivinhar que tem que dobrar à esquerda e, no final do corredor, à esquerda de novo.


- Oi. Eu gostaria de informação sobre curso de teatro.
- Olha, no momento não temos. Estamos abrindo turma, ainda sem data certa, em junho. Ou talvez julho.


Tentativa frustrada número 2. Rumo ao Santa Roza. Como chegar ao Santa Roza? Caros amigos, posso dizer que hoje fiz um tour completo pelo centro. Enquanto parava pra abastecer, sabia a quem recorrer, mas tinha vergonha. Ao ex. Bem, era minha carreira artística que estava em jogo. Tudo vale.


- Ei, tudo bem?
- Tudo.
- Tava dormindo era?
- Não. Por quê?
- Sei lá, tá com voz de preguiça...
- Não, não.
- Ei, pra ir à rua lateral do Santa Roza, onde tem uma praça pra pessoa estacionar, é pela Rua da Areia?
- É. Você tá onde?
- Na rodoviária.


Pacientemente, ele me explicou direitinho. Chegando ao Santa Roza, nada de aulas de teatro. Tinha dança, assim como no Lima Penante. Mas, nada de teatro.


Ariano Suassuna. Olho no google, pelo celular, o número do teatro. Deu no setor de Recursos Humanos do colégio Marista. Pedi pra que passassem para o teatro. Ninguém me atendeu. Fomos ao Marista.


- Oi. Gostaria de falar com alguém do teatro.
- Fale com esta moça, ela vai pra lá agora.
- É sobre o quê? É pra alugar, é? - perguntou a moça.
- Não. É sobre curso de teatro...
- Ah, tem não. Assim, pra quem é de fora (do colégio), tem não.
- Obrigada.


Sesc. Estacionar ali perto do Sesc é mais difícil que passar na OAB, acreditem. A frustração batendo, parei o carro na Lagoa e liguei pro Sesc. O setor de economia me atendeu. O de educação também. Mas, o de cultura, óbvio que não.


Liguei pro Paulo Pontes. O teatro me passou pra eventos, que me passou pro curso de línguas, que me passou pro jurídico, que me passou pra vice-presidência, que me passou pro teatro de novo. Desisti de ramais telefônicos e fui lá.


O teatro me mandou pro curso de línguas, que me mandou pro teatro de novo, onde eu conheci um senhor simpático, que me levou a outro senhor simpático, que me disse que não tinha turma.


- Mudou o Governo, você sabe como é, né? Sai comissionado, entra comissionado. Estamos montando o projeto, juntando os profissionais, pra mandar pro Governador (Ricardo, votei em você, não me decepcione, cara!) pra que ele assine e tudo comece.


Este indivíduo foi o mais simpático de todos. Pegou nossos telefones e nos encheu de esperança. Outro indivíduo que estava presente na sala disse que tínhamos cara de publicitárias.


- Só se for Rayssa, eu já nasci atriz.


Metida, eu sou uma pessoa metida.


Eis nossa saga. Frustrante, cansativa. Mas, se eu nomeei este texto de "parte I", quer dizer que é só o começo. Lilia Cabral tá pra conhecer a melhor amiga dela, eu. Wagner Moura tá pra conhecer sua segunda esposa, eu.


Palavras de incentivo, por favor.