sexta-feira, 30 de julho de 2010
De volta pra casa
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Lacuna
Impossível, também, era ter uma sintonia de humor. Sempre tinha alguém estressado. E sempre tinha brigas. Mas sempre tinha brincadeiras também. E eu sinto falta desse sempre. De todos os sempres.
sábado, 3 de julho de 2010
Cenas do mesmo capítulo
Mas nem somos. Somos melhores que o amigo do meu amigo que está com mais uma menininha diferente. Somos melhores que os pais das menininhas paqueradas da mesa vizinha. Somos melhores que a minha tia e seu namorado. Somos dois amigos mesmo.
Aí ele me olha com aquela cara de “de novo?! Mas você não aprende nunca?!”. Eu rio, rio muito. De novo, amigo. Eu falo 35628 horas de mim, ele resume o drama dele em meia-horinha. E é assim. O tempo passa, as pessoas passam e a gente é assim. Admitamos, amigo, você continua aquela pessoa controladora dos sentimentos e eu a guiada por eles. Você não me entende. Eu tampouco tento entender como é que uma pessoa se tolha das coisas que sente em troca de controle.
Aí ele analisa. Acho interessante a forma como diz que eu não me encaixo em estereótipos. Eu sou a mulherzinha que pensa demais e é cheia de paranoias. Mas também sou o cabra macho que não precisa de romance. Mas também adoro um romance. Mas também desiludo fácil, fácil. Mas também sofro pra caralho. Mas também é por pouco tempo. E por aí vai.
Depois eu rebato o jeito dele de ser. Minha vez de dizer que hei de ver o dia em que uma mulher vai quebrar as suas pernas, vai deixá-lo tão fora de controle que ele nem saberá o que é sentimento e o que é pensamento. Os dois serão as duas coisas numa só. E eu vou rir muito, porque vou achar bonitinho o seu desespero de mulherzinha. E todo mundo tem um lado mulherzinha. E ele tem que admitir!
Depois chega aquela parte de falar dos outros. Lembra daquela menina que pagava de santinha e todo mundo era doido por ela? Pois bem, eu não quero saber mais dela. Lembra daquele nosso amigo que era massa e todo diferente? Pois bem, foi embora. Lembra daquela outra que falava de todo mundo? Tá grávida. Sempre tem uma grávida.
E, depois, tome drama pessoal.
O cenário do restaurante vai se desmontando. Aposta quanto que o amigo do meu amigo foi pra um motel com a menina que eu não sei quem é? Duvida de que o casal, pai das menininhas bonitinhas da mesa vizinha, chegou em casa, colocou o velho pijamão e ficou cada um na solidão? Sabe que a minha tia já ta espalhando que me viu de namoradinho no restaurante, né? E os garçons, que nunca viram tanta modernidade nas conversas do casal?! Na hora de deixar nossas bebidas, haja conversa sem pé nem cabeça.
Quero brindar ao melhor tipo de saída do mundo. Um brinde a nós que, juntos, não ligamos pra nada e não saímos de um restaurante pra fazer coisas óbvias! Por favor, garçom, pare de me olhar esquisito e me traga uma coca, sem limão e com muito gelo.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Conversa de botas batidas
Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar
Veja você, onde é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar
Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar
Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela vai cair
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Wising up
Mais na frente, encontro aquela menina irritantemente chorona. Ela fala comigo, como de costume, olhando pro chão: não agüento mais. Chora, chora, chora. Eu, como sempre, choro junto. Mas, desta vez, percebo como ela é mesmo muito irritante. Pena. Toco em seu queixo e levanto sua cabeça. É a primeira vez que a vejo tão de perto. Por que era mesmo que nunca a olhava de frente e ela sempre estava de cabeça baixa? Ah, já sei. Bastava ela aparecer que eu me sentava ao seu lado, rendendo-me à sua dor. E ela é simplesmente chorona demais pra levantar a cabeça sozinha. Ela me olha muda. Eu a olho com pesar. Ela deixa as lágrimas caírem, mas não produz nenhum som. E sorri. Eu, ainda com pena, respiro fundo e a deixo.
Continuo a caminhada. Encontro uma senhora. Ela anda com cautela, segura sua bengala com força. Não me dá a mínima atenção. Não dá atenção a nada na verdade. Eu ofereço meu braço para que ela tenha onde se sustentar, para que, pelo menos, possa olhar o que se passa. Eu prometo que serei cuidadosa. Ela, contudo, olha-me com aquela seriedade e diz: eu sou feita de gelo; se me tocar, eu derreto. Sou apenas água em forma de pedra. Por isso não falo e mal ando. Sou o deslize em câmera lenta da minha própria essência. Olhei-a com clareza. Mas quem diria! É pedra, mas é pedra de água.
Mais adiante, encontro minha cama. Ainda bem. Cansei. Fiz um contrato com o diabinho. Calei a menina chorona. Respeitei a velhinha cuidadosa feita de pedra de água. Em meu travesseiro encontro uma magnólia. Vejo o diabinho sorrindo em uma pétala, a menina chorando silenciosa e de cabeça erguida em outra e a velhinha andando com sua bengala, sem prestar atenção, em outra. Percebo que estão todos interligados, como os personagens complexos daquele filme de várias facetas. Eu sabia que eles existiam, mas não conhecia suas caras e formas. Passava por eles e não parava. Só agora resolvi me relacionar com os três, dentre os incontáveis outros personagens que sei que existem, que são um só e que vejo no reflexo do espelho. Encarei as minhas partes que me apareceram hoje. Diabinho, menina e velhinha: eu.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Reticências
Após algumas conversas esparsas sobre coisas desimportantes e a caminhada de volta, estávamos os dois deitados. No quarto, havia duas camas de solteiro. Eu, em uma, ele na outra. O único contato físico que tivemos, até então, havia sido os dois beijinhos usuais do cumprimento.
Conversávamos sempre, o tempo todo. Lembro-me de que ríamos. Olhávamo-nos nos olhos. O tempo foi passando. O sol se esvaía. Ao final da tarde, estávamos muito próximos. Eu, na pontinha da minha cama, ele na da dele. A essa altura, falávamos baixinho, quase sussurrando. Os olhares sempre fixos.
Anoiteceu. Assim permanecemos: deitados e próximos. As únicas luzes vinham dos demais cômodos da casa e da lua. Eu o via e ele me via.
Foi breve. Tudo breve. Breve como esse texto e como os dias contados em que eu o vi adormecer em meus braços após aquela tarde. Mas foi grande. Foi seguro e real. Fez-me gigante, bonita e mulher. Levou tudo de mim, presenteando-me, ao mesmo tempo, com completude. Todos os meus pedaços se juntaram, ainda imperfeitos, mas bastantes, encaixados, coerentes. Deus existiu.
E acabou.
Ele fez de mim inspiração de sua poesia. E eu me fiz, dali em diante, uma só mulher em várias prosas diferentes.
sábado, 5 de junho de 2010
Teia de aranha
Madri, fevereiro de 2010. Estávamos eu e Carla andando. Andávamos com mapas em mãos, em direção a algumas coisas, mas sem rumo algum. Era inverno. Porém, a sensação que eu tinha era de que nossa felicidade era tanta que o sol nos acompanhava sempre. Portanto, era um dia de inverno ensolarado.
Adoro meu eu viajante. Adoro sentir na pele, além daquele vento gostoso, a sensação de voar sem asas. Eu sou as surpresas no caminho. Por menores que sejam, são surpresas. Em viagens, deixo meu eu ansioso em casa e liberto meu eu que se deixa conduzir pelo que não conheço. Eu sou as lentes da câmera que registram cada cor. Eu sou, ainda, sentidos apurados. Minha ansiedade de viver as coisas fica em casa pra dar lugar a olfatos, paladares, visões, tatos e audições. Assim, eu me espalho em sentidos e me dou sentido.
Em frente ao Palácio Real, uma surpresa. O violeiro tocava Sonata ao Luar. A Sonata fluiu e levou meu pensamento pra longe, pra uma saudade que não dói mais. É mentira que saudade dói pra sempre. Ela tem o condão de se transformar na medida em que nos transformamos. Ali me lembrei da minha avó, do quanto fui embalada por aquele som. O madrileño era violeiro, mas as notas que dali saíam soavam como as do piano Fritz Dobbert, cujas teclas toquei por toda minha vida. Inicialmente, aos 5 anos, com as mãos pequenas guiadas por aquelas mãos suaves dela. E a saudade sem dor é um suspiro na alma. Ah, ela viveu! E eu aqui, em Madri, vivo, vivo e vivo. Vivo ao som da Sonata, sob um sol que não queima, rodeada de cores, sem rumo e, mais importante que tudo, livre.
Na Plaza Mayor, eu e Carla andávamos de braços entrelaçados e ríamos (como sempre), alto e demasiadamente, de alguma coisa que não consigo recordar. Também pudera, motivos não faltavam! De repente, em meio àquele turbilhão de gente, as lentes de um fotógrafo madrileño nos capturaram. Nossa liberdade e felicidade gritante foram eternizadas em uma fotografia. Lembro-me de ter sentido uma vergonha misturada com cumplicidade. Vergonha por ter sido flagrada. Cúmplice da sensibilidade de quem estava ali pra capturar os momentos preparatórios do carnaval da cidade e entendeu o carnaval de sentimentos que emanava da gente.
Na última noite, teve o Rafa. Adoro deixar meu eu tímido em casa e ser meu eu espontâneo em viagens. Rafa nos doou sua amizade e conversamos horas a fio, até o último minuto, sobre o que queríamos. Senti uma empatia instantânea e recíproca. Isto confirma o que digo sempre sobre viagens: as pessoas que conhecemos, não importa de onde sejam, são inesquecíveis. Sou verdadeiramente fã do acaso. Graças a ele, dentre todos os lugares do mundo inteiro, estávamos ali, naquela salinha, nós três, ao mesmo tempo. Rafa é brasileiro. Mas, se aquele instante não existisse, nunca nos conheceríamos. Foram muitas risadas, muitas histórias contadas. O que restou disso foi um desenho feito por Carla e assinado pelas duas de lembrança. Nem uma foto sequer tiramos. Mas lembro do sotaque gaúcho com clareza, da risada tímida, das palhaçadas virtuais que fizemos com o notebook de Alexandra. E lembro-me de tê-lo achado muito querido por ter nos acompanhado naquela noite, ao invés de badalar nas boas noites madrileñas com Marcel.
Lembro-me de tudo por ter sentido várias coisas emaranhadas dentro de todos os meus eus (que também se confundem). Sinto-me assim hoje, presa no meu eu real, estático, rotineiro. Presa em um emaranhado de coisas que acontecem todos os dias. Eu sou uma bagunça, várias dúvidas e sentimentos confusos. Só que é bom lembrar, de vez em quando, que essas coisas também acontecem de uma forma inesquecível e verdadeiramente feliz. Como em Madri. Como ter a irmandade de Carla todos os dias. Como perceber sons e recordar coisas boas. Como ser percebida por desconhecidos. Como conhecer pessoas inesquecíveis.